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Rancho do Dadi e a era de ouro do rádio em Jaraguá do Sul

Foto: Arquivo pessoal de Laercio Machado | Atayde Machado, o Dadi, voz que marcou gerações no rádio

Por: Milena Natali

28/03/2026 - 08:03

Na manhã de 1º de maio de 1954, Dia do Trabalhador, estreava em Jaraguá do Sul um programa que marcaria a história da comunicação local. Criado por Atayde Machado, o “Rancho do Dadi” nasceu com a proposta de entreter e informar, especialmente o público trabalhador, tornando-se ao longo de cerca de 45 anos um dos maiores símbolos da era de ouro do rádio na região Norte de Santa Catarina.

A trajetória do programa está diretamente ligada ao surgimento da Rádio Jaraguá, inaugurada em julho de 1948, com o prefixo ZYP-9. A emissora foi uma das pioneiras na cidade, que passava a integrar o universo da radiodifusão com transmissões em ondas longas de 1510 quilociclos e potência de 250 watts, novidade para a época.

Foi nesse cenário que Atayde Machado iniciou sua caminhada. Antes de seguir carreira solo, ele formava dupla com Geraldo dos Santos, mais conhecido como Dado, participando de apresentações e programas de auditório no Cine Jaraguá, local onde a rádio funcionava, na rua Coronel Emílio Carlos Jourdan, hoje ocupado por um shopping. O contato direto com o público ajudou a moldar o estilo simples e próximo que deixaria sua marca registrada por anos.

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Foto: Arquivo pessoal de Laercio Machado | Dado e Dadi nos primeiros anos de rádio, dupla que marcou o início da trajetória de Atayde Machado na comunicação

Inicialmente chamado de “Rancho Alegre”, o programa passou a adotar o nome “Rancho do Dadi”, consolidando sua identidade. Com forte presença da música sertaneja e apoio de patrocinadores, a atração se destacou em um período de grande disputa por audiência no rádio AM (Amplitude Modulada).

Nos bastidores, o programa contou com profissionais importantes, como o sonoplasta Valério Gorges e Berenildo Antonio Berti, responsável pelas fitas, peça essencial no funcionamento do rádio na era analógica, afinal, mesa de som era algo distante naquele tempo.

 

“Eu não troco meu ranchinho amarradinho de cipó…”

Desde o início, o “Rancho do Dadi” tinha um público bem definido: o trabalhador. Ao longo dos anos, foi transmitido em diferentes horários, mas ficou marcado principalmente pelas edições nas primeiras horas da manhã, tornando-se o despertador de milhares de ouvintes, que já começavam o dia escutando sua música de abertura, Inhambu Xintã e o Xororó, da dupla Tonico & Tinoco, que mais tarde também foi regravada por Chitãozinho e Xororó.

Com uma proposta autoral, o programa combinava música sertaneja, prestação de serviços e interação. Um dos diferenciais era a atualização constante da hora após cada música, ajudando as pessoas a não se atrasarem para seus compromissos matinais.

O bordão de Dadi atravessou gerações: “Ah… onde quer que você esteja, ouça a linda música sertaneja”. A frase traduzia o espírito do programa, que levava companhia e leveza para o dia a dia do jaraguaense.

Foto: Arquivo pessoal de Laercio Machado | Atayde Machado, o Dadi, voz que marcou gerações no rádio

Já a participação acontecia por meio de cartas. Ouvintes escreviam pedindo músicas, fazendo homenagens ou enviando recados. Muitas vezes, as canções eram dedicadas a pessoas amadas, ou até a si mesmos.

As músicas de “sofrência” estavam entre as mais pedidas, criando situações curiosas e até divertidas. “Às vezes todos os dias alguém mandava tocar a música que fazia doer o chifre”, relembra um ouvinte, destacando o clima descontraído da programação.

 

Atayde Machado além do rádio

Dadi também foi compositor e poeta, muitos entusiastas da música pediam sua opinião, era quase que um caça talentos. Ele atuou ainda como servidor público e teve passagem pela política, sendo eleito vereador em 1986.

Foto: Antigamente em Jaraguá do Sul/Bia Bartel | Registro feito dos vereadores de 1986, entre eles, Dadi

Mesmo sem acesso à educação formal, valorizava o conhecimento. Um de seus poemas, “Escola do Mundo”, refletia essa visão. Após sua morte, em 1989, aos 61 anos, seu legado foi reconhecido com a criação da Escola de Educação Básica Atayde Machado.

Segundo seu filho, Laércio Atayde Machado, a homenagem carrega um significado especial. “Ele não teve a oportunidade de estudar, mas sempre valorizou o estudo. Ter uma escola com seu nome seria motivo de orgulho”, afirmou.

Foto: Milena Natali/OCP News | Laercio relembra com carinho a história do pai e de seu programa

Após a morte de Dadi, seus filhos Laércio e Lorival Machado assumiram o comando do programa, mantendo viva a tradição construída ao longo das décadas. Laércio permaneceu à frente do “Rancho do Dadi” por cerca de mais 10 anos.

Hoje, muitos jaraguaenses lembram com carinho do programa, não é atoa que seus bordões ainda são comentados por aí. Porque, para quem viveu, a despedida nunca foi um fim, era apenas um até logo. “E até amanhã, com mais um Rancho do Dadi”, dizia ele. E, de certa forma, esse amanhã permanece conosco.

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Milena Natali

Graduanda em Jornalismo pela Faculdade Bom Jesus IELUSC, redatora de entretenimento/cotidiano e colunista de história no jornal impresso.