“Se eles (poder público) não conseguem resolver os problemas dessa comunidade que é tão pequena, como darão conta do resto?". A pergunta é do morador Ronnie Rogério de Souza, 32 anos, que mudou o destino por meio do esporte. Mas, salvar a própria vida não foi o suficiente. Ele queria fazer mais pela comunidade onde nasceu. Por isso, há três anos, abriu uma escolinha de futebol. Só que essa escola não tem teto, uniforme e nem material adequado para o ensino de qualidade que ele gostaria de oferecer aos quase 100 alunos. Para a sorte dele, e das crianças, uma escola particular do Norte da Ilha disponibilizou uma quadra de esportes ao projeto do Ronnie, que também recebe apoio do Instituto Vilson Groh. “Precisa transformar as crianças para que elas transformem o lugar onde vivem. Existem muitos talentos aqui, mas precisa haver incentivo”, ressaltou o professor de futebol. https://www.youtube.com/watch?v=n_C9GNEbVh8 No coração da comunidade com pouco mais de 180 famílias existem cinco equipamentos públicos, mas só um funciona: a Creche Vila União. O Centro de Convivência de Fortalecimento de Vínculos, que era conhecido como Centro de Educação Continuada (CEC), está fechado desde 2015. A unidade que servia como contraturno à escola para crianças e adolescentes já dava sinais de fracasso em anos anteriores, quando os alunos eram frequentemente dispensados por falta de merenda ou professor. LEIA MAIS: Moradores desconfiam da segurança e temem retomada de facções Ao lado do "CEC" está o Centro Comunitário. O espaço com salão, cozinha, banheiros e uma sala de informática encontra-se completamente deteriorado. Os computadores provavelmente não funcionam mais. Os vidros estão quebrados, há goteiras por toda parte. Até livros foram abandonados dentro de uma sala. Nos fundos, tem uma quadra de esportes, também danificada. Uma das traves de gol só está de pé porque foi amarrada à grade. O muro que divide a quadra da creche, corre o risco de desabar. Mais adiante, no terreno ao lado, está o equipamento que a comunidade chama de “galpão”. O espaço, onde funcionava desde oficinas de artesanato até aulas de artes marciais, foi ocupado pelos insetos. Teias de aranha bloqueiam a passagem pela porta com os vidros quebrados. “Eu vivi essa época entre os meus oito e 15 anos. A gente aprendeu a fazer crochê, pintura, participou de atividades de educação física, recebeu reforço escolar. A gente não ficava na rua como as crianças de hoje que não tem o que fazer depois da aula”, contou a jovem Marielle Santos Ferreira, de 23 anos. Além de ficar sem alternativa de atividade para os netos, a moradora Doraci da Rosa, 48 anos, também ficou sem emprego. Ela chegou a trabalhar na limpeza e na cozinha do CEC. O centro não só ocupava o tempo das crianças, como também servia de apoio aos pais que precisavam trabalhar e não tinham com quem deixar os filhos.     “Faz muita falta. No começo, tinha muita coisa boa: professor de educação física, língua portuguesa, voluntários que davam aula de ballet e capoeira. Agora, está tudo destruído. A gente mora aqui, né, mas os que vêm de fora ficam com outro pressentimento”, lamentou Doraci. A Marielle disse que os moradores cobraram a reativação dos equipamentos em uma das visitas do atual prefeito, Gean Loureiro, durante a campanha eleitoral. “Ele deu aquela passadinha mínima, falou que ia ajudar. Mas, até agora, nada. Na verdade, o nosso lugar sofre com muito preconceito. Tem cada talento desperdiçado aqui que só vendo”, enfatizou a jovem moradora. Ronnie, o professor de futebol, espera que o investimento venha e que a nova geração tenha a oportunidade de vislumbrar um futuro melhor. Com ou sem recurso, ele vai continuar fazendo o que pode e nem pensa em desistir dos alunos. “Aqui é o melhor lugar para eles (os governos) treinarem como combater a desigualdade”, sugeriu. Prefeitura promete reformar um dos quatro espaços abandonados
CEC está fechado desde 2015 (Foto: Schirlei Alves)
  A secretária de Assistência Social, Katherine Schreiner, garantiu a reforma de um dos espaços abandonados na Vila União: o Centro de Convivência de Fortalecimento de Vínculos que passará a se chamar Serviço de Convivência. A representante da pasta municipal prometeu conversar com as outras secretarias e avaliar a possibilidade de reestruturar os demais equipamentos: o Centro Comunitário, a quadra de esportes e o galpão. Katherine se comprometeu a visitar o Serviço de Convivência na semana passada acompanhada de um engenheiro que faria avaliação do tamanho da reforma e do valor da obra. A previsão é de que o edital para contratar uma empresa seja lançado no próximo semestre. Enquanto isso, duas salas da creche serão disponibilizadas de forma paliativa, a partir de maio, para atender as atividades de contraturno escolar e, assim, impedir que as crianças continuem ociosas. "Esse tramite (entre o lançamento do edital e a contratação da empresa) é burocrático, vai um certo tempo. Não podemos esperar, por isso, vamos começar na creche, é um local que a gente pode dar uma resposta rápida à comunidade", explicou Katherine. Após a reforma, a secretaria vai precisar de funcionários. Para isso, Katherine espera contar com trabalhadores da educação (admitidos em caráter temporário) e com projetos de instituições sociais. Um edital, que deve ser lançado ainda este mês, vai selecionar as entidades. A escolha será baseada na qualidade da proposta. A secretária não considera o modelo adotado pela pasta como terceirização do serviço. No entanto, foi esse debate que motivou a greve dos servidores da saúde e da educação na semana passada. Um projeto de lei (PL) da Prefeitura, que tramita na Câmara de Vereadores, sugere abrir vagas em creches e a Unidade de Pronto Atendimento no Continente por meio de convênio com Organizações Sociais. Ainda que o modelo adotado pela Assistência Social não seja o mesmo do PL, o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem) questiona a transferência da responsabilidade da gestão pública a outras entidades e a contratação de trabalhadores sem concurso público, mesmo que o contrato não vise a obtenção de lucro. Katherine defende que haverá fiscalização do serviço e alega que esta é a única forma de contratar profissionais, uma vez que o limite fiscal impede a Prefeitura de promover novo concurso. "Se não fosse dessa forma, não conseguiria abrir, não tem servidor efetivo, sou obrigada a chamar essas entidades ou pessoas que tenham projetos sociais, se não, eu não consigo fazer nada", disse Katherine. A secretaria também divulgou, na última semana, que pretende centralizar as atividades de assistência, esporte e desenvolvimento no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), para tornar mais eficiente o direcionamento dos serviços disponíveis às comunidades. LEIA MAIS: Moradores desconfiam da segurança pública e temem retomada de facções Intervenção policial antes de ação social é a estratégia adotada pelo Estado Quer receber notícias no WhatsApp? Clique aqui
Sala de informática do Centro Comunitário está abandonada (Foto: Schirlei Alves)
Livros e restos de materiais de construção abandonados no Centro Comunitário (Foto: Schirlei Alves)
Professor de futebol, Ronnie aponta problemas na quadra de esportes da comunidade (Foto: Schirlei Alves)