Não precisa ser PhD em perfis de comportamento para afirmar que cada família tem uma bela amostra do que temos na sociedade, desde o coroinha até o psicopata que já pensou em convidar o chefe para um churrasco e depois enterrá-lo atrás da casa. Refiro-me a família propriamente dita, nem estou considerando os agregados, aqueles que sabemos porque se “aprochegaram”, mas não sabemos de onde vieram.
Quando comecei o estudo para redigir esta crônica, logo lembrei da analogia feita por um amigo: “senha compartilhada e telefone no viva voz são suicídios”. Eu acrescentaria: manifestar-se no grupo da família também, há infinitas possibilidades de interpretação.
O dicionário Aulete define “grupo” como conjunto de pessoas reunidas para uma finalidade comum a todas. Aí está a explicação: nem todos ali têm a mesma intenção. Uns estão por obrigação (Como vou sair do grupo da família? Vou perder a minha parte da herança?). Outros estão somente como figuras decorativas, como um vice-prefeito depois da eleição. Alguns apenas para especular barracos e poucos querendo interagir.
Nos grupos das minhas famílias há distinções. Em um deles a relação é aberta, são bem aceitos os cônjuges de outras “raças” (sobrenomes) – como dizia minha falecida avó. Do outro lado, não! Ter o sangue dos Vieiras é a regra para ser adicionado. Porém, na semana passada, um primo desavisado inseriu o meu pai, que não atende ao critério. Não serei eu, o cara a desqualificar o próprio pai, se os sobrinhos(as) o consideram o tio emprestado preferido. Pra piorar, ele é o mais ativo, aquele mais manda saudações e mensagens de otimismo.
Fiquei sabendo que o pessoal aproveita as paradas judiciais para vazar dos grupos, discretamente. Também soube de confusões em grupos familiares de amigos. Uma galera criou um minigrupo pra fazer uma pastelada, só da panelinha e na hora de puxar o número da prima Sandra, pegaram o justamente o de outra, uma homônima de nariz empinado E a indesejada aceitou o convite. Foi difícil arrumar uma desculpa para cancelar tudo.
Noutro caso, o problema foi causado por um tiozinho que enviou mensagem picante para amásia, sugerindo um encontro naquele entardecer chuvoso, no qual “tiraria a sua lingerie com os dentes”, só que digitou tudo isso no grupo da família Silva. Foi excomungado e ameaçado sumariamente pelas irmãs beatas, tudo ali, à vista de todos.
Da minha parte, espero permanecer entre os Vieiras e os Lamas por um bom tempo, afinal, este esforço que fiz por preservar os barracos das minhas famílias precisam ser recompensados de alguma forma.
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Marcelo Lamas, autor de “Indesmentíveis”.
marcelolamas@globo.com