“Vai uma cachacinha aí?” A frase soava comum em Jaraguá do Sul há algumas décadas, quando praticamente todos os caminhos levavam aos alambiques, locais onde se produzia artesanalmente cachaça, melado e outros derivados da cana-de-açúcar.
Concentrados principalmente no bairro Ilha da Figueira, os alambiques eram parte fundamental da vida jaraguaense. A região chegou a abrigar mais de vinte deles, cada qual com suas técnicas, segredos e tradições. Para antigos moradores, como Arno Elert, de 86 anos, esses espaços ficaram marcados em sua memória, afinal, iam além da produção, não eram só locais de trabalho, mas também pontos de convivência.
O alambique em si era um engenho artesanal, geralmente de cobre, madeira e pedra, onde a cana-de-açúcar era moída e transformada em caldo. Esse líquido, depois de fermentado, passava pelo processo de destilação em grandes panelas de cobre aquecidas a lenha, resultando na aguardente. O mesmo caldo também era usado para fazer melado e rapadura, produtos indispensáveis nas mesas.
O processo era acompanhado de perto pelas famílias, em uma verdadeira produção comunitária. O barulho dos bois girando a moenda, o vapor dos tachos fervendo e o cheiro adocicado da cana cozida faziam parte da rotina da região.

Foto: Arquivo Histórico/Clélia Tecla Ribeiro | Engenho de Pedro Winter na rua Walter Marquardt
Opa Schmitz e a pinga que virou apelido
Entre os protagonistas dessa história está Clemente Schmitz (1888–1975), ou mais conhecido como “Opa” Schmitz, marceneiro, produtor de farinha, capilé, vinagre, e também mestre do alambique. A bebida ficou tão conhecida que ganhou até apelido.
“Meu Opa ficou conhecido principalmente pelo alambique de cachaça. Ele ajudava na fabricação, no engarrafamento e na distribuição da Caninha. Tanto que o pessoal começou a chamar meu avô e meu pai de Caninha, e esse apelido atravessou gerações”, conta o neto Zeca Junior Schmitz, de 54 anos.

Foto: Arquivo Histórico/ Família Schmitz
Apesar de ser um homem reservado, Clemente deixou lembranças afetuosas. Zeca recorda a cena do avô sentado em sua cadeira de balanço, encantado com um trenzinho de pilha que ganhou no Natal. “Ele não falava muito, mas o olhar de carinho e curiosidade ficou gravado para sempre”, relembra.
Clemente morreu em 1975, deixando a esposa Júlia (Schweitzer), oito filhos biológicos e duas filhas de criação. Seu legado, no entanto, ainda ecoa na memória da família e da cidade.
A produção na época não era apenas comercial, era parte da economia de troca, da convivência, da culinária. O melado, por exemplo, era o caldo da cana cozido até ficar espesso, usado para adoçar bolos, mingaus, aveia, ou simplesmente saboreado com pão caseiro. Numa época rodeada de cheiros, sabores e a partilha entre vizinhos.

Foto: Arquivo Histórico/ Família Schmitz | O alambique ficava na parte de trás da casa
Hoje, poucos alambiques ainda existem em funcionamento em Jaraguá do Sul. Mas a história continua viva nas lembranças coletivas e nos grupos de memória como o “Antigamente em Jaraguá do Sul”, onde fotos e histórias trazem de volta aquela cidade pacata, doce e acolhedora dos tempos em que o alambique era ponto de encontro.
Receita de melado à moda antiga
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Ingredientes: 2 kg de cana-de-açúcar fresca (espremida para obter o caldo), 500 g de açúcar mascavo (opcional, para intensificar o sabor), 1 pitada de sal.
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Modo de preparo:
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Filtre o caldo de cana e leve ao fogo em tacho de cobre ou panela grossa.
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Cozinhe em fogo médio a baixo, sem mexer demais, até reduzir pela metade ou ficar com consistência espessa, parecida com melaço.
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Adicione o açúcar mascavo se desejar um sabor mais profundo, e uma pitada de sal para realçar o doce.
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Retire do fogo e deixe esfriar antes de guardar em pote de vidro ou barro.
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Esse melado era usado no café com broa, mingau de milho ou mandioca, e até como cobertura em bolos caseiros, uma tradição doce e simples, que tal fazer aí na sua casa

Foto: Reprodução/Wikipédia