Já tem 20 anos que o joinvilense Gurcius Gewdner pratica sua maior paixão: fazer filmes. Começou com 14 anos, e de lá para cá botou mais de 40 títulos no currículo, a grande maioria, curtas experimentais e de terror longe do convencional. É uma longa trajetória na completa independência e nos orçamentos quase zerados, mas que agora chega a terras distantes e rende certa notoriedade ao artista.

“Pazúcus: Ilha do Desarrego” nunca foi apresentado em Joinville, mas desde o ano passado roda o mundo. Estreou em maio de 2017 em Portugal, e depois foi exibido no Fantaspoa, maior festival de cinema fantástico do Brasil. Na sequência, foram festivais no Peru, na França, Rússia, Romênia, Alemanha, Inglaterra, Dinamarca, Austrália e outros países que Gurcius não recorda.

Há poucos meses, o longa ganhou edições em DVD, VHS e Blu-ray por meio de uma produtora de Nova York. É muita coisa para um filme desajustado, delirante e escatológico, parcialmente rodado em Florianópolis, onde monstros fecais infernizam a vida de um homem, enquanto seu analista tenta mata-lo para salvar uma ilha de um tsunami. O mesmo lugar em que um casal busca tranquilidade em meio à natureza, mas logo é aterrorizado por ela.

Confira a seguir a entrevista que Orelhada fez com Gurcius Gewdner:
Em que tipo de eventos “Pazúcus” tem sido exibido? E quais as reações a ele? 
Gurcius - A lista de países é bem generosa. Os festivais de gênero que abraçaram o filme não se arrependeram e ele deu o que falar, apaixonou pessoas, expulsou outras. Os relatos dos curadores contando os surrealismos das sessões sempre me enchem de alegria. Também bem aceito em festivais focados em "cinema de arte" (as aspas são pra gente nunca esquecer que filmes de gênero também são arte), com abertura pra experimentação e com um debate e posicionamento político bem direcionado, como foi o caso da Semana dos Realizadores, no Rio de Janeiro.

A circulação de um curta muitas vezes é mais fácil. ‘Pazúcus’ tem quase duas  horas, exige um voto de provocação, imersão e paciência por parte do curador. As pessoas que o colocaram na grade de seus festivais, muitas vezes na base do bater de pés, discutindo com outras, merecem as frutas mais deliciosas do paraíso.

Tenho muito amor pelos dois filmes (o outro é ‘Bom dia, Carlos’, de 2015), lutei pelo nascimento deles com o vigor que eu não lutaria em uma guerra. São meus filhos, frutos saborosos e sofridos de nossa carne, golpes irreversíveis de salvação em minha sanidade mental, que me dão orgulho.

 

O fato de ser uma produção brasileira chama mais atenção ou isso é irrelevante?
Gurcius - O filme dialoga com cinema brasileiro, porque eu amo cinema brasileiro, filmes como Hittler Terceiro Mundo de José Agripino de Paula, O Profeto da Fome de Maurice Capovilla, as narrações febris do Mojica e outros mais, estão todos ali e mais fortes ainda em mim.

Mas acho que cinematograficamente esse é um filme sem nacionalidade, que se comunica com todos os mundos, de um frame pro outro ele vai das praias em preto e branco dos filmes antigos do Roger Corman ao colorido dos delírios anarquistas de Shuji Terayama.

Mesmo geograficamente ele não é exatamente brasileiro, já que eu misturo as paisagens de Florianópolis com a fauna da Austrália, existem coalas voyeurs e cangurus onanistas espalhados pela ilha inteira. Mas claro que, e não é de hoje, o cinema fantástico de gênero e independente brasileiro tem fama de ser peculiar.

Creio que isso cria uma sensação de "tudo pode acontecer" pra quem é de fora do país e adentra nos incríveis buracos estranhos do cinema brasileiro e seus filmes malucos. O calor desse buraco é delirante e maravilhoso.


O filme está saindo agora em DVD. Como o pessoal faz pra encomendar?
Gurcius - Foi lançado em VHS, DVD e Blu-ray pela SRS Cinema ( http://www.srscinema.com/ ) de Nova York. É fácil de encomendar pra quem recebe em dólar ou euro, pra gente aqui no Brasil fica meio caro, eu nem comprei copias extras pra revender. Mas é claro que farei uma edição nacional, com extras, tudo que o filme merece. Já juntei bastante material, debates, entrevistas, apresentações ao redor do mundo.

A edição nacional terá modalidades de vários discos e como não poderia deixar de ser, o plano é uma campanha de pré-venda com prêmios especiais, talvez centrada mais fora do que aqui, pra arrecadar dinheiro extra pra finalização do próximo filme. Isso ainda não aconteceu porque é complicado fazer tudo sozinho e os dias vão passando.

‘Bom Dia Carlos’ (foto abaixo) tem uma edição especial personalizada onde eu envio o filme com um saco de vômito personalizado, que inclui também um desenho feito especialmente pro mecenas que encomendar, mais alguns outros bonitos brindes. Compre AQUI.


Esse é o seu trabalho de maior repercussão?
Gurcius - Creio que sim. Abriu algumas portas, mas ainda não é o suficiente, é um caminho. O desafio agora é seguir de maneira evolutiva, ir mais longe com o próximo filme, mas isso também não significa moldar os filmes pensando nisso, ao menos não durante a criação deles. Preciso ser sincero com o que cada filme propõe, entender os caminhos dele. Esses dois filmes tinham escatologia e monstro, é claro que iriam bem, quem não gosta de uma dose gostosa de um pouco dos dois?

Outro fator decisivo é o orçamento: me acostumei a fazer filmes com nada, esse filme foi feito com muito pouco, mas não foi com nada, esse "quase nada" tem uma diferença grande. O grande desafio talvez seja exatamente descobrir maneiras de filmar com orçamentos maiores, convencer pessoas a me ajudarem a conseguir esse dinheiro. Pra que eu possa fazer filmes ainda mais abertos ao mundo. Experimentos mais bonitos e insanos.

 

 Você já trabalha em outro filme?
Gurcius
- Sempre tentando, sempre tentando transformar 24 horas em mil. Estou batalhando pela finalização de dois longas já filmados, nenhum dos dois têm um caminho financeiro certo ainda. Sigo tentando, ou conseguir tempo, ou conseguir dinheiro que me compre tempo. Coloquei o "Isopor Esperança", nosso ambicioso e absurdo documentário sobre (a banda) Os Legais em um edital, foi reprovado. Quero tentar de novo.

Também tem um projeto que tô doido pra filmar, que segue apenas no papel, que é um filme de aventura e terror misturados a um esporte que eu amo. Deixo no mistério por enquanto porque ainda tem muito trabalho pela frente. Esse não pode ser micro orçamento, coloquei em um edital ano passado, foi reprovado e quero conseguir botar em outros, até finalmente conseguir.

Filmes são vida. Fazer filmes pra mim é um sonho vívido. Ver os sonhos prontos, correndo o mundo, é melhor ainda, ver em uma tela gigante, com o volume bem alto. Ou enlouquecer sozinho, escrevendo ou montando, rindo alto às três da manhã sonhando com o dia que esses delírios serão projetados em uma sala escura ou no muro de uma cidade.

Todas as fases do processo são mergulhos em estados de maravilhamento. E o que é melhor: compartilhado com outras pessoas. É por isso que é importante fazer filmes com pessoas especiais. Pessoas que você admira e nutre afeto. Fascistas não gostam de gente, muito menos de gente que sonha acordada, e em grupo. O Brasil é, sempre foi, horrendamente fascista. E por isso é necessário se fazer filmes cada vez mais anti-fascistas, sonhar cada vez mais alto, de maneira escandalosa, agressiva e apaixonada. Superfilmes contra o baixo astral.