O trabalho voluntário já é algo a ser destacado quando feito em sua própria cidade. Agora imagina viajar 3 mil quilômetros para dar oficinas de teatro, de forma gratuita, à uma comunidade que sofre com problemas sociais.

É exatamente isso que a jaraguaense Joelen Nogueira Chagas, 27 anos, vem realizando desde 2017, na pequena cidade de Betânia do Piauí, que tem apenas 6 mil habitantes.

Com 14 anos, tímida e tendo dificuldades para apresentar trabalhos na escola, Joelen mudou seu jeito de viver a vida ao ingressar em um curso de teatro, na Sociedade Cultura Artística (Scar). "Comecei a observar que o teatro poderia ser uma ferramenta social", relata.

Em 2017, um amigo a convidou para ir ao Piauí ensinar teatro para crianças. E foi assim que ela partiu para Betânia do Piauí e despertou o talento dos nordestinos, que tem de sobra, mas estava adormecido entre os problemas que sofrem na região.

Joelen não esconde que os primeiros meses em Betânia do Piauí foram bem chocantes, e não era para menos.

Imagina começar uma nova vida em uma cidade que não tem água encanada, o esgoto é a céu aberto, empresas não existem e as pessoas que não têm energia elétrica e o mínimo de acesso a higiene pessoal.

Onde a jovem mora não tem água encanada, nem tratada e a água mais barata para se comprar vem do poço. "Para quem convive lá, as doenças acabam sendo inevitáveis", diz.

Teatro como uma ferramenta social

Quando chegou no Piauí, Joelen ainda não sabia como ensinar teatro, por isso primeiro conversou com as crianças e identificou três áreas para trabalhar: autoestima, coordenação motora e regras sociais.

"A autoestima deles é muito baixa, eles acham que não vai sair nada bom de lá. Muitas crianças destroem os bancos da praça, jogam lixo no chão e não respeitam os professores", comenta a jaraguaense, que buscou trabalhar em cima desses pilares.

Apesar da maioria de seus alunos serem crianças, Joelen tem em sua oficina pessoas de até 48 anos, mas ela não vê dificuldades pela diferença de idade, já que eles são bem dispostos e se ajudam. "Como é uma coisa nova, gosto de trabalhar com brincadeiras lúdicas, sempre mostrando que ninguém é melhor do que o outro", conta.

O aluno Andreik Xavier Ramos junto com Cícera Sofia, que veio assistir a apresentação da turma | Foto Arquivo Pessoal

Com duas turmas, as aulas ocorrem todos os sábados, de manhã e a tarde, tendo duração de aproximadamente sete meses e culminando com uma grande apresentação em novembro. Nos primeiros quatro meses, a jaraguaense foca em ensinar a história e as técnicas do teatro.

"Eles também aprendem técnica vocal, maquiagem artística, expressão corporal, dramaturgia e sonoplastia, para quando chegar na apresentação final eles tenham um aparato", diz.

Significado e motivação

Claro que a pergunta que Joelen mais ouve é sobre o motivo de realizar algo que não gera um retorno financeiro. Ela diz que o amor por fazer isso fala mais alto.

"Ver crianças descobrindo um mundo novo, tendo contato com coisas que nunca teriam acesso. Enxergar a alegria delas é o que vale. Não tem dinheiro no mundo que me traria esse prazer", destaca.

Ela fala que os nordestinos são um povo mais simples, humildes, alegres e com mais fé, porque quando plantam, nunca sabem se vai chover. Isso tudo fez Joelen criar um vínculo familiar com eles.

A principal intensão das aulas de teatro é que o poder público olhe para esses lugares esquecidos e melhorem a condição de vida dessas pessoas. "Quero criar nas crianças esse senso social, porque dom e talento eles tem, só precisa alguém despertar isso neles", relata.

Alunos de Joelen encenando a adaptação da história do Peter Pan | Foto Arquivo OCP News

Desde 2017, cerca de 60 alunos passaram pela oficina ministrada pela Joelen, mas existem um em específico que mais marcou ela. Com a ajuda do teatro, Sérgio Otávio, um menino introvertido e que chorava a cada apresentação escolar, começou a desenvolver habilidades que estavam escondidas.

No dia da apresentação, a família de Sérgio Otávio não conteve a emoção de ver a alegria do garoto em apresentar uma peça para mais de 200 pessoas, conta Joelen. "Ele tinha um potencial enorme, só precisava ser estimulado", relata.

Joelen ficará somente mais um ano no Piauí e pretende estudar Relações Internacionais para ter um aparato politico que vai ajudar nas questões sociais.

"Vou continuar trabalhando com a parte social, mas vou estar mais equipada para conhecer as leis e dar um suporte melhor", destaca.

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho realizado por Joelen, basta seguir o Instagram da oficina.

 

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