Foi no dia 13 de julho de 2015, ironicamente no Dia Mundial do Rock, que a música clássica joinvilense viveu uma noite memorável.

Sobre o palco da praça do Mercado Público e diante de uma mar de gente eufórica, a Orquestra Cidade de Joinville espantou o frio com um concerto magnífico, revestindo clássicos do rock com arranjos eruditos.

Era a consagração popular do conjunto orquestral pelo qual a cidade esperou por anos – desde 1996, quando a orquestra regida por Tibor Reisner foi desativada.

Infelizmente, a Orquestra Cidade de Joinville teve destino semelhante menos de um ano após aquele marcante 13 de julho.

A Prefeitura, que mantinha a estrutura e os salários dos 31 instrumentistas, lançou um edital para seleção de novos músicos em maio de 2016 e, no fevereiro seguinte, cancelou o processo, alegando as habituais “restrições orçamentárias”.

De lá para cá, silêncio absoluto. Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura diz que pretende reativar a orquestra, reitera a relevância dela, mas que a crise econômica restringiu a capacidade orçamentária do município.

“No momento em que houver capacidade financeira para a manutenção deste importante bem cultural, o município dará prosseguimento ao processo de lançamento do novo edital para a seleção de músicos da orquestra”, afirma a nota oficial.

O destino dos 31 músicos que faziam parte do grupo é variado. Alguns foram estudar em Portugal e na Alemanha, integram orquestras profissionais em Curitiba, Florianópolis e Jaraguá, tocam em festas ou na noite de Joinville. Outros são professores de música, e uns até viram motoristas de Uber.

A revelação é feita por Fabrícia Piva, maestrina, discípula de Tibor, que esteve à frente da orquestra desde sua concepção, em 2012, até meados de 2015.

Para ela, a grande contribuição da orquestra era ser um corpo artístico profissional que representava Joinville, criava intensa atividade musical e ajuda na formação de músicos.

“O projeto era de baixo custo para o município. Além disso, dava uma contribuição social, pois abriu vagas para oficinas de todos os instrumentos a pessoas de diversos bairros”, conta, ressaltando que a orquestra se encaminhava para virar uma parceria público-privada. “Infelizmente, tudo se perdeu por falta de visão política”.

Pablo Teixeira, divulgação

Substituto de Fabrícia na baqueta, Martinho Klemann (foto acima) está certo de que o público sente falta dos bons momentos que a orquestra proporcionou nos dois anos de apresentações quase sempre lotadas.

“Eu espero que a OCJ seja reestruturada em algum momento, quem sabe, antes do término da gestão atual, já que seu fortalecimento foi um dos itens do plano de governo na área cultural da campanha de reeleição”, aponta.

Na opinião de Fabrícia Piva, reduzir investimentos na cultura é um erro enorme, porque a cultura gera bem estar, e a função do político é administrar o bem estar da população.

Por isso, a reativação da orquestra não depende apenas dos esforços dos envolvidos e de articulações mil, mas também de vontade política.

“Uma cidade que tem uma orquestra profissional é diferente. Tem um valor imensurável. (...) Eu acredito no social. O projeto precisa movimentar a comunidade. Levar o grupo para os bairros, promover atividades diferenciadas, programas de difusão junto com o sistema educacional. A orquestra precisa ter um diálogo com a cultural nacional e local, além de manter as grandes tradições (óperas, sinfonias, etc)”, enumera a maestrina.

Sociedade Harmonia-Lyra, divulgação

Essa integração com a comunidade, de transformação social, de tornar a música orquestral acessível como fenômeno de conhecimento, também é mencionado pelo maestro Voldis Sprogis (foto acima), que assumiu a orquestra já em meio ao processo de reformulação. Ele segue como coordenador do projeto e acredita na sua reativação.

“O projeto da Orquestra Cidade de Joinville amplia e dá um passo adiante na difusão da música orquestral na comunidade”, reafirma.

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