A escritora joinvilense Bruna Morsch não quer levantar bandeiras e dispensa plenamente os rótulos. Pode ser uma missão difícil, tendo em vista sua condição de mulher trans bem sucedida logo no romance de estreia. Lançado no final do ano passado pela Editora Micronotas, “Van Ella Citron” se vale de um mar de referências pop para contar a história de uma garota em busca de status e da própria identidade, passando por temas espinhosos como feminismo, machismo, misoginia e capitalismo.

É um conto longo orquestrado pela habilidade de Bruna com as palavras por seus conhecimentos de psicóloga. No processo, ela descobriu um pouco de quem é e do que sua personagem representa para ela mesma, e viu que ser ícone de qualquer movimento não está nos planos. Bruna quer, acima de tudo, se expressar sem cobranças ideológicas.

Antes de mais uma sessão de autógrafos do livro, nesta sexta-feira (20), às 19h, na Livrarias Curitiba do Shopping Mueller de Joinville, Bruna deu a seguinte entrevista par Orelhada.

 

Para você, a Van Ella Citron foi um símbolo do “tornar-se” mulher. Pode explicar?
Bruna Morsch – A Van Ella foi, de fato, uma tentativa de elaborar minha identidade. Claro que não é um livro autobiográfico, porque não passo pelas experiências da Van Ella, mas ela é um pedaço de mim, e de fato ela tem muitas questões que eu fascino da feminilidade, dos meus ideais enquanto mulher. Escrever o livro foi uma elaboração pra tentar descobrir que mulher eu sou. A Van Ella tem muito a ver comigo.

E ao final desse processo, o que você descobriu sobre si?
Bruna – Acho que o que eu tenho a ver com ela é o doce e o ácido, sou os dois ao mesmo tempo. Tenho o semblante de uma moça doce, mas a mina presença é um tanto acido, porque eu intimido as pessoas com meu corpo, com meu jeito, minha aparência. E ao mesmo tempo sou ácida quando preciso ser, no sentido de quem tenta me corroer, e preciso participar desse fluido relacional que eu acho tão ácido nessa sociedade.

Você acha que se tornou um símbolo LGBTQ em Joinville?
Bruna – É muito difícil decretar isso ainda. Mas acho que sim. Eu tento escapar um pouco da simbologia LGBTQ justamente por não dar conta da militância exigente hoje na sociedade LGBTQ e no movimento feminista. Não pretendo levantar bandeiras, a não ser a minha mesma. Não quero que apareça LGBTQ  antes do meu nome ou da Van Ella. O fato de eu estar lançando este livro, de estar trabalhando como professora, como psicóloga, como escritora, já é político suficiente pra eu que seja de fato uma símbolo pra bandeira LGBTQ. Mas não é algo que quero protagonizar na minha carreira.

O livro vai ter continuação?
Bruna – Eu não gostaria que o livro tivesse continuação porque é meu primeiro romance, a aposta que fizemos foi baixa porque não sabíamos o que seria dele. Até que conseguimos o mérito de estar entre os 10 melhores livros de 2017 pela revista SP Review e decidimos ampliar isso. De fato, a Van Ella não saiu da minha cabeça. E vai ser uma trilogia, inclusive com as ideias fechadas para o término do segundo e do terceiro livros. Meus planos para o segundo livro seriam lançar no final do ano, comecinho do ano que vem e já começar o terceiro.