CENTÚRIAS Algo inevitável para um historiador (e, diria, para qualquer ser humano) é, posto diante de fato a ser analisado, ser acossado por inúmeras referências, e ao bias, o viés de sua formação. A primeira palavra que me ocorre é centúria, e aí relembro Liddell Hart, de quem estudei a estratégia militar através dos tempos, e a centúria romana, unidade de infantes formada por 80 legionários correspondendo a dez pelotões, que, multiplicados por seis, originavam a legião, hoje nossos batalhões. A segunda acepção da palavra, aí no plural, é o conjunto de profecias de Michel de Nostradamus, dez conjuntos de versos, cada um com cem quadras de um médico e alquimista, que pela aproximação ao ocultismo aliado à sua intuição elaborou raciocínios sobre o futuro. O que nos remete ao presente, à exposição “Juarez Machado dos 11 aos 77”, que inaugura o novo pavilhão do Instituto Internacional Juarez Machado. “Centúria” eu a chamo, e diria o artista: et pourquoi? Não são cem obras, e não vem ao caso contá-las, lado a lado formam centúria, se multiplicam numa miríade de olhares, o observador submerge e deixa-se ofuscar pelo que se apresenta, e, como diz Heráclito, o obscuro, na clareza das obras esconde-se a narração. Todas contam histórias, o artista é um narrativista, coisa que a crítica de arte moderna e contemporânea condena, uma vez que grande parte dela pensa que o observador deva construir sua própria participação e não ser induzido, ou que a obra se atenha a valores plásticos. Contudo, psiquicamente, todos nós atuamos dessa forma, os narrativistas sentem uma constante conectividade entre o Eu que forja suas identidades, e suas ações. A exposição é um diário sobre arte e como fazer arte, sua obra reflete a interação humana, como estilo é preciosista, nas deformações chega ao maneirismo pelas poses contorcidas, alongadas e serpenteadas como Giorgio Vasari definiu “alla maniera”: leveza, graça e sofisticação.

Aliás, desde sua primeira tela pintada a óleo, 11 onze anos, fica clara sua visão de mundo. É uma pintura ou cena de gênero: óculos sobre um livro aberto ao lado de um abat-jour. A riqueza de detalhes caracteriza essa representação pictural dos temas da vida diária maiores ou menores, intimistas ou do mundo exterior. São lembranças revistas pelo espelho do artista, formas retrabalhadas pela arte. Impossível enumerá-las. “Châteaux Bordeaux” é uma primorosa obra, de composição clássica barroca, com elementos arquitetônicos formando nicho que resguarda casal degustando vinho, o êxtase os leva a flutuar sobre a paisagem francesa, contraposição de formas recurvas entre os corpos e o rio Garonne, imprimindo ritmo dinâmico à composição. E bem próximo, duas telas no mínimo curiosas, pois em essência a composição espacial é a mesma. Numa, a procissão de uma santa em andor é encabeçada por uma penitente semi-desnuda (arrependida quiçás?); na outra, “Maison Satine” é uma festa mundana de casamento, apenas os pares de personagens são outros, sagrado e profano reverso de uma mesma realidade. O tema das águas, sempre presente em muitas de suas obras como fundamentação das ondinas, seres elementais mitológicos da água, e poeticamente gênios do amor, aparece  no “Poema e o rio Itajaí-Açu”, com o poeta-artista lançando seus textos às águas, e noutra,  “Água Santa”, evocando as fontanas de Roma, turbilhão barroco entre formas esculturais e mitológicas. A água aparece doutro modo na surreal “Veneza sommersa e a ponte de Rialto”, inversão de horizontes com a cidade sob as águas, e as gôndolas vazias de turistas, pois não há mais nada a ver. Felliniana é a “Via do povo”, digna de um filme do mestre do cinema, a saída de figurantes da Cinecittá, bem anos 50, com atores  da Belle Époque, centuriões, padres, bispos , camponesas e os vitelloni nas lambretas. No “O trem que não chegou”, o surrealismo de uma personagem chapliniana olha angustiada para o relógio diante dos trilhos, porém, no topo de um prédio, dentre tantos outros de uma megalópole. Noutra tela, algo de nossos tempos, a figura obnubilada diante da TV, sua identidade dissolvida pela fantasia da vida irreal transmitida. E, por último, algo bem recente: “Deux drapeaux:bleu-blanc-rouge et vert et blanc”, na parede o cartaz Belle Époque do can-can do Moulin Rouge no passado, e  hoje a roda de samba brasileira no chão, ladeado por mulheres esvanecidas semi-despidas e fantasiadas quais guardiões do tempo, o mesmo em todas as épocas e lugares. Como nas “Mil e uma noites”, olhemos essas obras e ouçamos suas histórias. É Juarez Machado quem nos conta. Walter de Queiroz Guerreiro, crítico de arte (ABCA-AICA).