Já imaginou encontrar em casa todos os documentos que possibilitariam que você mudasse completamente de vida? É assim que o jaraguaense Allan Püttjer, 26 anos, descreve como foi ter sua cidadania alemã aprovada em 2014.
Pra ter uma ideia de como a história dele é ainda mais inesperada, ele conta que tinha todos os documentos em casa, mas não sabia. “Quando comecei a pesquisar sobre o passado da minha família, descobri que meu bisavô materno veio de Hamburgo, na Alemanha, e uma coisa levou a outra até descobrir que esses documentos reconheceriam a cidadania da minha família como alemães morando no Brasil”, explica. Ele acrescenta que esse é justamente o entendimento da lei alemã para o reconhecimento. É como se eles fossem alemães nascidos no Brasil, o que concede a dupla-cidadania.
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Bargteheide, na Alemanha, cidade do bisavô de Allan
Com a descoberta dos documentos, ele se informou sobre o processo no consulado de Blumenau e entregou a documentação. Segundo Allan, normalmente, demora de três a cinco anos para uma resposta, mas o processo de sua família levou apenas um ano, pois eles tinham bastante material, e a linhagem era muito próxima.
Com isso, além de Allan, a cidadania foi reconhecida para toda a sua família por parte de mãe: tios, mãe, primos, irmã e o sobrinho.
“Muita gente, principalmente em Jaraguá têm direito a isso, mas não tem os documentos, ou não sabe como fazer, infelizmente”, ressalta.

O começo de uma nova vida

Antes dessa descoberta, Allan já tinha vivido uma experiência fora do Brasil. Durante a faculdade de Comércio Exterior ele fez um Work and Travel na Califórnia, nos Estados Unidos, por quatro meses, retornando ao Brasil em março de 2010. Nessa época já era fluente em inglês.
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No Grand Canyon, nos Estados Unidos, em 2010
Depois de quatro anos por aqui, em 2014 Allan decidiu partir de novo, com um novo destino: Austrália. Eu já ouvi muitas vezes que depois da primeira viagem pra fora, logo vem a vontade de ir de novo, conhecer mais lugares, outros países. Quem também se sente assim?
Mas a decisão de largar sua vida em Jaraguá não foi tão fácil assim. “Eu estava trabalhando naquele tempo, e foi uma decisão bem difícil sair, porque eu amava trabalhar onde estava. Porém, uma decisão pessoal pesou mais e tive que me jogar no mundo”, relembra.
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No Brasil, na despedida antes de ir para a Austrália
A irmã de Allan foi a grande incentivadora para ele partir de novo, ela iria junto, inclusive. Ela o convenceu, e também a outro jaraguaense, o Paulo, um amigo-irmão deles.
“Havíamos decidido ir para a Austrália nós três. Quando estava tudo pronto, ela acabou desistindo. Então fomos só eu e ele”, conta.
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Austrália, Great Ocean Road
Para Allan, o começo foi muito difícil, porque o inglês falado na Austrália é completamente diferente do americano, que ele estava acostumado (além de muitas referências britânicas, havia também as palavras próprias). “E além disso, é uma cultura diferente do que eu conhecia, e é um país muito caro. Todos lá, inclusive os próprios australianos têm dois ou três empregos para viver bem”, conta.
Lá, Allan estudou inglês, trabalhou e viajou muito, mas depois de um ano ele e Paulo voltaram, cada um com seus motivos. “Mas eu fiquei só três meses no Brasil e fui viajar de novo”, diz.

Conquistando um trabalho de dar inveja

Em novembro de 2015, Portugal entrava na vida de Allan, e dessa vez ele já iria como cidadão europeu - sua cidadania fora aprovada seis meses antes da viagem para a Austrália.
Ele decidiu ir viver um pouco no país, e foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar na Netflix para o mercado brasileiro (!!). Ele explica que a oportunidade acabou sendo uma coincidência, pois ele estava lá justo na época que a empresa estava contratando - segundo Allan, a Netflix não trazia pessoas de outros países para trabalhar porque era muito complicado legalmente.
Com a galera do trabalho, na Netflix, em Portugal
“Eles precisavam de brasileiros com permissão de residência na Europa e inglês fluente, pois além de conversarmos com outros brasileiros, também era preciso ligar pra Califórnia e resolver alguns contratempos que aconteciam, mas tudo muito tranquilo”, explica.
Em resumo, seu tempo era dividido entre receber ligações de clientes, dar suporte à equipe de atendimento e entrar em contato com a central da Netflix na Califórnia.
Para ele, foi uma boa experiência conhecer um pouco da cultura de mercado de uma empresa americana focada na cultura brasileira. “Eles são demais! Quando sobrava um tempo dava até pra ver filme no trabalho”, conta rindo.

Novos desafios e uma língua bem diferente

No tempo que estava em Portugal, Allan foi de férias para a Alemanha, onde encontrou alguns possíveis parentes e se apaixonou pelo país. A partir daí, voltou para Portugal, esperou terminar seu contrato e, em junho de 2016, se mudou pra a Alemanha.
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Em Hamburgo, na Alemanha
Em Hamburgo, ele está estudando alemão em tempo integral, pois infelizmente não dá pra trabalhar por lá falando só o inglês. Seu curso é de seis meses, mas ele já está pensando em fazer uma especialização na área de comércio exterior para trabalhar no porto da cidade, um dos maiores da Europa.
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Hamburgo, canais da cidade
“O ensino aqui é muito rígido e muito eficiente. Além disso, faço um curso para me integrar na cultura deles, que é completamente diferente da referência que temos do que é ser alemão”, conta.
Algumas curiosidades
Allan dividiu com a gente alguns aspectos culturais diferentes que vive por lá, confere só:
  • O domingo é sagrado para o descanso, por isso até os supermercados fecham. E todos passam o dia com a família, fazendo serviços domésticos ou indo ao parque.
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Hamburgo aos domingos
  • Conforme Allan, Hamburgo é uma cidade bonita, limpa, organizada e as pessoas têm uma maneira especial de cuidar das próprias casas, com flores ou algum detalhe que sempre chama a atenção;
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Em Hamburgo, no parque
  • Segundo ele, uma coisa muito engraçada é que há esquilos e coelhos por vários cantos da cidade - inclusive no parque ao lado de sua casa. “E estamos falando de uma cidade de quase dois milhões de habitantes!”
  • Ele estava preparado pra encontrar uma maioria de luteranos, mas muitos alemães são ateus;
  • Eles são muito carinhosos ao receber as visitas, sempre com flores ou presentes. Porém, a visita à casa de alguém deve ser sempre anunciada previamente. Eles não se sentem constrangidos em dizer que não desejam sua visita em determinado dia se já têm um compromisso.

Vencendo desafios

Perguntei ao Allan se teve algum momento que ele não sabia se iria superar, algo que ele arriscou e conseguiu vencer. Para ele, a chegada na Austrália foi um desses momentos.
No trabalho, na Austrália
No trabalho, na Austrália
“Considero que a experiência de ter chego ao país e começado tudo do zero me deu medo no início, pois eu não tinha emprego e não sabia como me manteria depois do primeiro mês lá. Mas minha família e amigos sempre acreditaram em mim, e isso me deu força pra tentar e conseguir. Na terceira semana lá, consegui o primeiro emprego e as coisas foram acontecendo”, finaliza.
Fotos: Arquivo Pessoal/Allan
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É jaraguaense, está morando em outro país e quer dividir sua experiência com a gente? Manda um e-mail no contato@poracaso.com contando um pouquinho da sua história, nós vamos adorar conhecer!