Equipe durante gravação da escultura Rita Maria do artista Paulo de Siqueira, que fica no pátio do Terminal Rodoviário em Florianópolis | Foto Antonio Luiz Pellegrini / Divulgação.
Equipe durante gravação da escultura Rita Maria do artista Paulo de Siqueira, que fica no pátio do Terminal Rodoviário em Florianópolis | Foto Antonio Luiz Pellegrini / Divulgação.

Quem passa pelo CIC, o Centro Integrado de Cultura, ou pelo Terminal Rodoviário Rita Maria, em Florianópolis, pode não ter observado, mas em frente a esses prédios se encontram duas das mais importantes obras do artista plástico Paulo de Siqueira.

Um escultor gaúcho, radicado em Santa Catarina, que nas décadas de 70 e 90 usava sucata como matéria-prima para suas obras.

O artista é conhecido no Estado por ter produzido o monumento “O Desbravador”, obra que se tornou cartão postal da cidade de Chapecó, mas Siqueira deixou no sul do país e na Argentina mais de 50 obras gigantescas.

Na capital do Estado, “O Equilibrista” e “Rita Maria” representam parte do seu legado que desafia o tempo. As obras, feitas de “ferro velho”, expostas ao ar livre, se não receberem manutenção, tendem a desmanchar.

A obra de Paulo de Siqueira e fragmentos da história de sua vida estão no documentário “Dom Quixote das Artes”, que terá sua estreia em Florianópolis dentro da programação do Cineclube Unisul,  nos dias 21, 22 e 23 de setembro, às 20h, no Cinema do CIC.

A produção é da Margot Filmes, produtora de Chapecó, e viabilizada através de recursos do Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas de Chapecó e da Lei Rouanet.

Retrato de Paulo de Siqueira no Memorial que fica na base do monumento em Chapecó | Foto Cassemiro Vitorino / Divulgação.

O Artista

Paulo de Siqueira se dizia, se imaginava e se autorretratava Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. A marcante presença desse personagem na vida e na obra do artista provoca a abordagem e relação estabelecida na proposta do documentário “Dom Quixote das Artes”.

Era ao som de óperas e música clássica que o artista plástico Paulo de Siqueira dava vida às suas criações. Autodidata, realizou sua primeira exposição aos 16 anos, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde viveu até a adolescência. Nada comum, sua obra transita entre a modéstia e a grandiosidade.

A vida de Paulo de Siqueira era produzir arte, não importava o momento, o local, quando ele tinha algo para colocar para fora, ele extravasava. Era intuitivo e nunca explicava uma obra de arte. “A liberdade não é um pedaço de pão”, dizia Dom Quixote, o seu “eu literário”.

Para produzir suas esculturas, explica uma das personagens do filme, a pesquisadora Maria Helena Scaglia, Paulo “usava o lixo do progresso, ele passava na rua, olhava, ele não via uma sucata, ele via um ser mitológico, e ele desfazia a  dureza do ferro na leveza dos monumentos.” Os gigantes de Siqueira parecem que estão no ar, em posição de salto.

As esculturas com mais de dois metros de altura e pesando no mínimo uma tonelada estão em espaços públicos e representam o principal legado do artista, que foi reconhecido nacional e internacionalmente.

Sua genialidade na construção dos monumentos chamou a atenção de outros artistas e críticos de arte. Na época, ele foi considerado uma revelação em escultura, especialmente por utilizar material de sucata, o que era polêmico nas décadas de 70 e 80.

Por serem corrosivos, o ferro e o metal, expostos ao tempo, não garantem vida longa às obras, fato este que compromete boa parte das esculturas de Siqueira.

Em 1972 Siqueira passou a morar em Chapecó e de maneira muito efetiva participou do desenvolvimento cultural da cidade, sendo, inclusive, um dos fundadores do Grupo Chap, primeiro coletivo artístico de Chapecó.

O artista viajava muito para produzir seus monumentos, chegava a ficar meses na elaboração de uma escultura. Algumas de suas obras, como a que está em um Centro Comercial de Porto Alegre chega a pesar 14 toneladas e está suspensa por apenas um cabo que a conecta ao teto.

Obra O Equilibrista de Paulo de Siqueira em frente ao CIC em Florianópolis | Foto Ilka Goldschmidt / Divulgação.

Produção do filme

Os diretores do filme, Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, contam que o processo de produção do documentário levou três anos para ser concluído, entre o período destinado à pesquisa até a finalização.

As gravações ocorreram entre 2015 e 2017. Foram gravados depoimentos e obras no Brasil e na Argentina, em cidades como Corrientes, Passo Fundo, Garopaba, Florianópolis, Balneário Camboriú, Joinville, Porto Alegre, Serafina Correa, David Canabarro e Chapecó.

Amigos, artistas, escultores, pesquisadores contam histórias sobre Paulo de Siqueira, no total, 25 personagens.  O documentário tem 97 minutos de duração, é um longa-metragem.

A narrativa passeia entre as obras dando destaque às grandes esculturas, e percorre os principais trabalhos do artista, revelando também sua personalidade. Tem destaque no filme a trilha sonora, música clássica para suas obras, já que o artista só produzia ouvindo este tipo de música, e a trilha tema composta pelo compositor e músico Márcio Pazin.

De Passo Fundo a Corrientes, na Argentina, Paulete, como era carinhosamente chamado, era um artista intenso e sonhador.

Paulo de Siqueira acreditava, acima de tudo, no poder transformador da arte e soube lutar para que sua obra pudesse estar acessível a todas as pessoas, acalentando o sonho de liberdade, que tanto prezava. Paulo costumava dizer que a escultura é o trabalho mais espontâneo dentro da arte¸ “é um desenho no espaço”.

Paulo de Siqueira | Foto Arquivo Museu Paulo de Siqueira.

Confira o teaser do documentário

Dom Quixote das Artes - Trailer from Margot Filmes on Vimeo.

Sinopse - Dom Quixote das Artes

Paulo de Siqueira, autor de “O Desbravador”, obra que se tornou cartão postal de Chapecó, é um personagem tão forte quanto Dom Quixote de La Mancha, embora este seja uma criação de Miguel de Cervantes, e Siqueira uma invenção de si mesmo.

Os dois compartilham o ato de sonhar e a busca pela liberdade. A vida de Paulo de Siqueira era produzir arte, não importava o momento, o local, quando tinha algo para colocar para fora, ele extravasava. Era intuitivo e nunca explicava uma obra de arte.

Seus monumentos gigantes feitos de sucata e espalhados ao ar livre por diversas cidades ainda hoje desafiam o tempo.

Ficha técnica do filme “Dom Quixote das Artes”

Direção, roteiro e montagem: Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt

Direção de Fotografia: Cassemiro Vitorino e Ronaldo Bernardi
Câmeras: Cassemiro Vitorino, Daniel Mayer e Ronaldo Bernardi
Som direto: Antonio Luiz Pellegrini  e Cleiton Fernandes
Colorista: Fabiane Bardemaker
Mixagem: Cleiton Fernandes
Trilha tema: Márcio Pazin

 

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