Lojas de discos fecham todos os dias, no mundo inteiro, por uma série de fatores. A própria expressão “loja de discos” parece um tanto nostálgica, senão ultrapassada para uma geração que cresceu ouvindo música no Ipod e no celular. No Brasil, então, crises de todo tipo engoliram o setor, deixando umas poucas heroínas para contar a história. A Discolândia é uma delas.

E haja história para contar ao longo de 50 anos, marco surpreendente que a loja – verdadeiro ícone da cultura musical joinvilense – completa neste 15 de janeiro de 2019. Numa terra arrasada, é a única da cidade a sobreviver exclusivamente da venda de discos (CD, LP e DVD) e de aparelhos de som e a receber regularmente lançamentos diversos.

A trajetória da Discolândia começou quando Waldemar, o pai do pai do proprietário Alexandre Wojtech (batizado Siegfried Alexander), deixou a Alemanha com a família, em 1951. Depois de passar pelo Rio de Janeiro, se estabeleceu em Joinville, onde montou uma oficina que construía e consertava rádios. Mais tarde, deu início a Elwo Eletrônica Catarinense, por muitos anos a única fábrica de radiolas do Estado.

Alexandre era um dos funcionários da fábrica, que funcionou até a metade dos anos 70. Antes disso, em 1969, ele montou o próprio negócio numa sala alugada na rua 15 de Novembro, mesmíssimo local onde está até hoje. Uma empresa familiar para vender discos e equipamentos, tocada desde sempre ao lado da esposa Marli Avancini.

Mais do que uma comerciante, Marli é uma apaixonada por música e conhecedora dos meandros da indústria fonográfica nacional. Para ela é fácil falar dos altos e baixos pelos quais esse mercado passou ao longo destas cinco décadas, misturando saudosismo com um certo desânimo diante do atual cenário cultural.

Marli recorda, por exemplo, do tempo em que lançamentos eram escassos, por isso, a ansiedade dos clientes pela chegada na loja de determinado LP. Por falar nisso, o auge das vendas aconteceu entre 1978 e 1988, quando a variedade e a qualidade dos discos que saíam no Brasil eram tão grandes quanto a procura por eles.

“Tudo o que tenho devo ao vinil”, Alexandre faz questão de declarar.

Sim, a Discolândia já chegou a ter 13 funcionários e por muito tempo foi a principal fornecedora de música para diversos programas de rádio de Joinville. Mas os tempos são outros. Veio o CD – que, ao contrário do que se pensa, continua vivo e sendo o principal produto de venda – e mudou a relação das pessoas com as lojas discos e com a própria música.

Para Marli, a digitalização da música foi nefasta. Ainda que a tenha tornando mais acessível, ela implodiu as lojas físicas, distanciou o público dos lojistas e afetou até mesmo o interesse pelo DVD.

“As pessoas não sentam mais em família para assistir a um bom musical”, percebe. “Eles tiraram a alma da música. Mas ela vai continuar, a boa, a média e a ruim. O que mudou foi o modo de consumi-la”.

O que, então, mantem a Discolândia de pé, apesar dos pesares? Na opinião de Marli, a fidelidade de seu público, que encontra na loja mais dos que os hits do momento. Abastecidas tanto pelas grandes gravadores quando pelos pequenos selos, as estantes oferecem instrumentistas brasileiros, blues, jazz, discos importados, títulos de tiragem limitada e CDs e DVDs de “bandinhas” germânicas, trazidos diretamente da Alemanha.

“Você tem que amar a sua profissão e ter competência. Tem as pessoas que são fiéis, que sempre nos procuram, que vêm de Curitiba e de São Paulo e ficam felizes quando encontram a porta ainda aberta”, completa Marli.