Cada ruga, poro ou fio que nasce irregular na barba interessa muito ao trabalho do joinvilense Sandro Luzz, 36 anos. Levar com precisão todos estes detalhes ao papel é quase um agradecer diário, uma retribuição pelos olhos perfeitos. Penúltimo filho entre dez irmãos, oito deles com baixa visão ou cegos, Sandro foi destinado a enxergar e fez o sentido a ferramenta fundamental para os desenhos, que chegam a ser facilmente confundidos com fotografias, tamanho o realismo. A visão levou Sandro ao desenho de forma tão intensa que ainda na infância ele era motivo de discussões em família. As primeiras telas, feitas de descartes de uma fábrica de portas com o carvão do fogão à lenha, enfureciam o pai, que não aceitava a veia artística do menino. A briga tinha por trás a preocupação. O pai de Sandro trabalhava como vigia da Casa da Cultura de Joinville e, tendo contato com artistas que davam aula na instituição, não via com bons olhos o estilo de vida fora dos padrões adotado por eles. Um destes "pontos fora da curva" era Hamilton Machado, considerado a principal inspiração de Sandro até hoje. A repressão tornou o joinvilense um pré-adolescente problemático, e o jeito encontrado pelo pai para mantê-lo sob controle foi levá-lo junto ao trabalho. Se não bastasse a Casa da Cultura, outros prédios culturais também tinham a vigilância dele, fato que permitia Sandro conhecer o Museu de Imigração e o Museu de Arte com a intimidade de poucos. - Lembro de circular pelo acervo pelo sótão do MAJ, onde ficavam guardadas as obras. A escolha paterna até ajudou a minimizar as travessuras noturnas de Sandro, mas, na escola, os desenhos sob a carteira ganhavam ainda mais força. Uma das professoras, reconhecendo o talento, ajudou Sandro a se inscrever na Casa da Cultura, batendo definitivamente de frente com o que determinara o pai. - Foi aí que ele me deu um ultimato: se eu começasse a fazer aulas de artes, deveria sair de casa. Eu decidi enfrentar e quando cheguei em casa minhas roupas estavam fora. Sandro tinha apenas 13 anos e teve que se virar sozinho, na rua. Foram dois anos vivendo no Centro até conseguir alugar o primeiro lar em Pirabeiraba. As aulas na Casa da Cultura não foram para frente, mas o desenho persistiu. Naquele momento, o menino precisava ganhar dinheiro para construir o próprio futuro. E o fez. Trabalhou com muita coisa até poder, há dois anos, viver apenas da sua arte. Além das reproduções fieis que faz de fotografias com lápis, carvão ou tinta, também projeta grandes painéis e dá aulas particulares de desenho.   Exposições   Sandro Luzz está em cartaz em dois espaços de Joinville. No Shopping Cidade das Flores, ele apresenta "Fora do Tempo", uma exposição com desenhos feitos para clientes e alguns acervos pessoais. Na Associação de Artistas Plásticos de Joinville (Aaplaj), ele participa da coletiva de obras "Proibido para menores de 18 anos". Neste mês, ele também inicia a restauração do painel do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, assinado por Hamilton Machado em 1991. A paisagem retrata a Baia da Babitonga. Texto e foto: Rafaella Mazzaro