Existem muitas autoras que não têm a visibilidade que deveriam ter pelo simples fato de serem mulheres”, crava a jornalistas Marcela Güther. Ela exemplifica: Charlotte Brontë, que em 1847 precisou usar o pseudônimo Currer Bell para publicar o livro “Jane Eyre”.

O clássico vitoriano é um símbolo das dificuldades que as mulheres encontravam para publicar, serem lidas e levadas a sério.

Uma situação que persiste nos dias atuais, a ponto de motivar a criação de um movimento de incentivo à leitura de obras escritas por mulheres. Surgido na Inglaterra, em 2014, se espalhou pelo mundo.

No Brasil, virou o #LeiaMulheres, um clube literário presente em mais de 50 cidades, Joinville entre elas.

Por aqui, os encontros mensais do #LeiaMulheres completam um ano neste sábado, às 15h, no IFSC (rua Pavão, 1.377, Costa e Silva). O foco de debate será justamente “Jane Eyre”.

Orelhada conversou com Marcela, mediadora do clube. Confira a entrevista:

Quantas pessoas começaram o clube e quantas têm hoje?
Marcela
- Temos frequência maior de mulheres, em média de 10 a 15 pessoas participando em cada encontro. Todo mês aparecem pessoas novas, algumas participam de todos os eventos, outras não conseguem ir aos encontros às vezes, mas leram os livros propostos. Varia muito de acordo com o tema dos livros e a identificação de cada um com as obras.

Homens também costumam aparecer?
Marcela
- Aparecem muito poucos, em sua maioria acompanhando as participantes. Muitas pessoas tendem a confundir o público com a proposta do clube, até por causa do nome. Pensam que se trata de um grupo exclusivo para mulheres, mas as únicas regras são a leitura de escritoras e a mediação feita por mulheres. O grupo é aberto para todos participarem. E homens são muito bem-vindos para o debate.

O que muita gente deve pensar é: qual é a diferença entre literatura feita por homens e a feita por mulheres?
Marcela
- As principais diferenças são a visibilidade, valorização, representatividade e a forma como a figura da mulher é abordada na obra. A literatura foi, por muito tempo, realizada por homens, geralmente brancos, heterossexuais e de classes privilegiadas. Isso acabou por excluir a literatura feita por negros, mulheres e outras minorias sociais.

Felizmente, isso hoje está mudando aos poucos. Hoje, fala-se em literatura escrita por mulheres para romper os estereótipos: a mulher pode escrever sobre o que quiser e deve ser publicada independente do tema que aborda.

 

Você acha que os encontros têm inspirado a produção literária também?
Marcela -
A meu ver, os dois se alimentam, mesmo que criar um clube e um público-leitor seja um trabalho de “formiguinha”. Quanto mais se lê autoras, mais mulheres enxergam que é possível produzir literatura e serem reconhecidas por suas obras.

Quanto mais clubes existem, mais mulheres se sentem motivadas a criar um em sua cidade. Quanto mais as mulheres se veem representadas em obras literárias, maior será o número de leitoras e escritoras.

Qual a conexão entre os objetivos do clube e temas tão discutidos hoje, como machismo, feminismo, violência contra a mulher, abuso doméstico?
Marcela - A ideia principal do Leia Mulheres é incentivar uma luta cada vez mais compartilhada para empoderar mulheres escritoras que sobrevivem a um mercado editorial com preponderância de vozes masculinas.

Assim, as obras ou histórias de vida das autoras que são discutidas no clube põem em debate, direta ou indiretamente, assuntos que evidenciam a disparidade social e cultural existente entre homens e mulheres, que mostram o que está errado em nossa sociedade e o que é preciso mudar.

Quais os planos daqui pra frente?
Marcela
- Um dos principais desafios é tornar a programação do clube ainda mais plural. Neste primeiro ano, discutimos muitas escritoras negras e foi ótimo. Sentimos falta de negros participando dos debates e queremos nos aproximar mais dos movimentos negros da cidade, para que possamos evoluir juntos neste processo.

Mas, além disso, pretendo ampliar a programação de 2019 para incluir mais autoras latino-americanas e brasileiras, incluindo também mais poesia (senti esta carência no encontro sobre a Ana Cristina Cesar: uma feliz surpresa que há muito público para poesia na cidade) e outros estilos de escrita.

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