Os textos abaixo foram escritos com base nos depoimentos de mais de 130 mulheres jaraguaenses, recolhidos entre os dias 4 e 7 de março de 2016.
Você, leitor, pode ter sido um desses agressores.

- NA ESCOLA -

Quando eu tinha 10 anos, em frente à escola, um homem passou a mão nas minhas partes íntimas, por cima do uniforme, como se meu corpo fosse domínio público. Outro dia um rapaz passou a mão na minha bunda enquanto eu utilizava o bebedouro da escola. Quis chorar de raiva e humilhação.
Anos depois fui perseguida e chamada de "puta" por dois rapazes enquanto voltava da escola no período noturno. Eu nunca fiz nada de errado para merecer passar por isso e só queria pedir uma coisa: respeito. 
- Você não tem o direito de abusar de mim por eu ser vulnerável.
- Você não tem o direito de me tocar por "brincadeira".
- Você não tem o direito de me agredir verbalmente para reforçar sua condição masculina.

- NA BALADA -

Curto sair com os amigos e ir à balada com frequência, mas algumas situações que passei me fazem pensar duas vezes antes de sair de casa.

Certa vez em uma festa, recusei ficar com um homem mais velho. Ele aparentava ter a idade de meu pai. Nada justifica o que tenha passado em sua cabeça, em seguida ele simplesmente passou por mim e enfiou a mão por dentro da minha blusa tocando meus seios. Sua "retaliação" não poderia ter sido mais suja. Eu me senti agredida, violada e com muita vergonha. 
Os homens, tanto de Jaraguá quanto outras cidades, precisam parar de achar que provam sua masculinidade ou atratividade por meio de atitudes agressivas ou ostentação. Carro, apartamento, dinheiro no bolso: um homem uma vez quis pagar por um beijo meu. Você não conquista a admiração de uma mulher desta forma. Pelo contrário, você deixa a entender que ela é outro bem que pode adquirir. Seu dinheiro não vale tanto.
- Você não tem o direito de me agredir por ter sido rejeitado.
- Você não pode me forçar à atividade sexual! O corpo é meu, as regras são minhas.
- Seu patrimônio não torna você uma pessoa melhor ou mais interessante.
Sinta-se no lado oposto da "pegada":
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- NO LAR -

O desrespeito também acontece dentro da nossa própria casa, no ambiente familiar. Quando criança, uma noite dormi na casa da minha tia, no sofá. Na manhã seguinte meu primo, alguns anos mais velho, deitou comigo para assistir TV e começou a passar a mão em mim. Eu o repreendi, mas ele não me levou a sério. Eu não sabia o que fazer, e por medo, não consegui reagir. "O que eu poderia ter feito para que isso acontecesse?" Por ser mulher, cheguei a pensar que a culpada pela situação era eu.
Hoje, casada passo por outras situações. Sou tratada como empregada, não tenho voz. Meu marido me abandona antes do almoço, e volta depois do jantar. Eu estou sempre à espera, com as refeições esfriando. Agora, entendo que o respeito está aí para quem tiver caráter suficiente para usá-lo.
- A existência de um estereótipo não o torna uma atitude correta ou aceitável.
- Você me agride ao me tratar como uma propriedade material, um bem usável.
- Você me agride ao ignorar que somos um casal.
Decidimos viver nossas vidas juntos, você deveria ser meu companheiro.

- NA RUA -

Andar na rua é uma atividade simples... pra quem é homem. Eu, mulher, sei que essa tarefa é muito mais complicada.
É sim, humilhante, ouvir “elogios” gritados. É sim, humilhante, ter a atenção chamada por assovios, buzinadas ou contato físico. Um dia desses, um cara usou o auto falante (sim, você leu certo) de seu caminhão pra me chamar de gostosa. Eu não vou me sentir privilegiada por você estar me cantando, ao contrário, vou me sentir intimidada, diminuída.
Você, homem que age desta forma, realmente acha que vai conseguir algo comigo além de despertar o sentimento de nojo?
Já fui assediada desde a SCAR até o Banco do Brasil, às 6h30, enquanto ia pra academia, por um homem de mais ou menos 30 anos que aparentava estar indo para o trabalho. As ruas ainda estavam vazias, nunca senti tanto medo na minha vida. Acabei abrindo mão da academia, por medo de encontrá-lo novamente e passar outra vez por essa situação.
Em outra ocasião, um homem parado com o carro na sinaleira me falou diversas coisas que eu não queria ouvir. O banco de trás estava cheio de crianças, possivelmente seus filhos.
Ser mulher é estar exposta e vulnerável, e isso é visto com naturalidade. Não! A sociedade está errada!
Certa vez, no Centro, um homem passou de bicicleta e enfiou a mão na minha bunda. Como alguém pode achar isso certo?
- Você me humilha ao gritar comentários sobre meu corpo.
- Você, que não sabe o que é viver à sombra de um estupro, ignora quão traumática é uma passada de mão.
- Você, que promove a grosseria, deve ser alertado: esse comportamento não é "NORMAL". Você é quem está propagando a estupidez.
Eis um vídeo dedicado a todos reis da boca aberta. É isso mesmo o que nós pensamos:
Como seria se cantadas falassem a verdade?
(via DR - Destruindo Relacionamentos
http://bit.ly/1JUrugV)
Publicado por Empodere Duas Mulheres em Sexta, 4 de março de 2016

- NO TRABALHO -

Ainda sonho em vivenciar  o dia que serei tratada igualmente no trabalho.
Já presenciei funcionário em posição alta em uma empresa assediando as "inferiores" recepcionistas. Já presenciei conversas abertas sobre os seios de colegas de trabalho. Já presenciei a troca de material pornográfico na pausa coletiva do café.
Não basta a objetificação, há a inferiorização. Já testemunhei em ambiente de trabalho clara discriminação de gênero: salário menor, função de "assistente", porém executando as mesmas tarefas de homens altos na hierarquia.
Lembro-me do dia que um colega de trabalho com quem era simpática tentou me beijar a força. Se somos fechadas, somos "ingratas", "mau comidas". Se somos simpáticas, somos, no mínimo, "fáceis". Meu patrão é ciente do que os colegas fazem, e não reage. Ele, homem, por não fazer nada, também torna minha vida um inferno.
E no trânsito? "Tinha que ser mulher". Não seja ridículo, mais de 70% dos acidentes de trânsito são provocados por homens!
- Você não pode limitar meu potencial aos seus pré-conceitos.
- Você desrespeita a mim e ao meu corpo ao objetificar outras mulheres em minha presença.
- Você impede que o mundo torne-se um lugar melhor quando não reconhece que pode voltar atrás em seus julgamentos.
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Artigo escrito por: Gabriela Bubniak, Gabrielle Dias Figueiredo e Ricardo Treis.