Existem casos tão intrigantes que, mesmo acontecendo fora do município, ganham notoriedade. Quem não gosta de uma história envolvendo drama e suspense? Pois uma delas é o caso Renaux, que abalou Santa Catarina e foi notícia, também, em Jaraguá do Sul. Uma pequena nota publicada no OCP de 19 de março de 1950 instigou a coluna a uma busca por mais informações sobre a morte do industrial Ivo Renaux. Em poucas linhas, o jornal dava uma receita muito “apetitosa” para quem gosta de um mistério: a principal suspeita, recentemente presa em Curitiba, era a esposa do empresário, Dagmar Sylvia Renaux. A pesquisa levou a alguns detalhes interessantes sobre o caso, que, de certa forma, nunca foi solucionado e até hoje intriga a população de Brusque (SC). Há, inclusive, um livro sobre este episódio: “Tragédia e mistério na Villa Renaux”, de João Carlos Mosimann, que aborda as diversas teorias sobre a morte do industrial e teve duas edições esgotadas.

Teses apresentadas para o fato:

Para muitos, tratava-se mesmo de homicídio, já que:
  1. O corpo de Ivo estava tapado com um lençol e suas mãos estavam sob este cruzadas, uma sobre o peito, outra sobre o abdômen. Se o tiro foi instantaneamente mortal (como o afirmaram o delegado e os peritos que examinaram o corpo), como Ivo matou-se e depois se cobriu com o lençol?
  2. Se Ivo se matou por que seus olhos estavam fechados e a expressão serena, como se tivesse morrido dormindo?
  3. Se Ivo se matou como justificar a ausência de pólvora na sua mão?
  4. Se Ivo se matou por que Dagmar mostrava-se tão preocupada em evitar a proximidade do corpo do marido morto?
  5. Se Ivo se matou por que não deixou algum bilhete?
  6. E, enfim, por que se mataria alguém bem-sucedido e alegre como ele?
PARA OUTROS, OS INDÍCIOS APONTAVAM MESMO PARA SUICÍDIO:
  1. Pois se era assim tão óbvio que Ivo não se matou por que sua família primeiro conformou-se à hipótese de suicídio?
  2. Se era tão óbvio que Dagmar o matou, por que não haverem buscado resíduos de pólvora em suas mãos? E impressões digitais na arma, um revólver calibre 32?
  3. Por que não terem preservado a cena do crime?
  4. Por que algumas testemunhas falam que o corpo estava coberto com um lençol até às costelas e outras até o pescoço?
  5. Por que outras só notaram a coberta mais acima depois de o tio de Ivo ter inspecionado sozinho o corpo?
  6. Por que não se procedeu à completa necropsia, a fim de responder se a morte de Ivo teria ou não sido instantânea?

Como morreu Ivo Renaux?

Em 30 de julho de 1949, o jovem industrial Ivo Renaux é encontrado morto em sua cama na mansão da família, em Brusque. Na noite anterior, durante a comemoração de seu aniversário de 32 anos, ele havia discutido com sua esposa, a bela paranaense Dagmar Renaux. Ela, preocupada com a ausência do marido em casa, já que havia preparado uma comemoração, sai à sua procura, acompanhada da sogra. Encontrado num bar com amigos, Ivo se nega a acompanhá-la de volta para casa e segue de Brusque para Itajaí, a fim de esticar a celebração. Na manhã seguinte, ele retorna. Vai para o quarto do casal sem Dagmar, que preferiu dormir num aposento contíguo. Horas depois, ouve-se um barulho. Esposa e empregadas pensam tratar-se da queda de um quadro, o que já havia ocorrido uma vez. Dagmar não vai verificar a ocorrência. São as funcionárias que encontram Ivo Renaux morto, com um tiro na cabeça. As primeiras impressões apontam para suicídio. Mas, logo a versão passa a ser de possível homicídio. Sobretudo, após um padre ter assim concluído, e, por isso, permitido que o corpo do industrial tivesse um sepultamento cristão (suicidas não faziam jus a tal benefício). Por sua aparente indiferença à morte do marido, as brigas constantes e possibilidades fáticas (apenas ela se encontrava no mesmo andar da casa na ocasião em que Ivo foi morto), Dagmar torna-se a única suspeita. Foragida, ela é presa no ano seguinte, na casa do pai, em Curitiba, conforme nota do OCP. A sessão do júri é marcada para o dia 30 de novembro de 1950 e movimenta Brusque. O julgamento durou 16 horas com debates acalorados entre a defesa e a acusação. Pouco depois das 5 da manhã, o juiz presidente do júri profere a sentença: inocente. A promotoria recorre da decisão. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina não acata o recurso, mas opina de forma surpreendente sobre o desfecho do caso: “Tem-se a impressão que a hipótese é, efetivamente, de homicídio e não de suicídio. De outro lado, sente-se que o autor desse crime outro não foi que senão a própria mulher da vítima. Não existe, contudo, nos autos, a meu juízo, provas decisivas e conclusivas do mariticídio.” Distintas interpretações foram lançadas ao fato, sem, contudo, chegar a desvendá-lo. O que realmente aconteceu naquela manhã de inverno na Villa Ida é um mistério até hoje. (Com trechos de crônica de Sandro Sell, professor de Direito e Sociologia, e publicações de jornais catarinenses)