No Festival Internacional de Música de Santa Catarina (Femusc), a diversidade não se apresenta como conceito abstrato, ela se revela como travessia.
Cada obra é um caminho, cada compositor um ponto no mapa, cada concerto um encontro entre tempos, estilos e geografias que, à primeira vista, jamais se tocariam. Ainda assim, no espaço do festival, tudo converge para um mesmo idioma: a música.
A programação do festival, que acontece de 11 a 24 de janeiro, nasce dessa escuta aberta. Ao acolher as sugestões de estudantes e professores, o festival permite que diferentes visões de mundo se encontrem e se transformem em som.
O resultado é um repertório que cruza séculos e estéticas, onde criadores do século 17 dialogam com vozes pulsantes dos séculos 20 e 21, e onde o romantismo do século 19 ecoa lado a lado com linguagens contemporâneas e expressões vindas de fora do universo erudito tradicional.
Nesse território sem fronteiras rígidas, Zoltán Kodály encontra Scott Joplin e John Corigliano; a ópera conversa com o musical; a música de concerto se aproxima do rock de Ozzy Osbourne, da poética sonora do Queen e da teatralidade de Andrew Lloyd Webber. O Femusc constrói, assim, uma ponte contínua entre tradição e invenção, entre memória e presente.
Os lugares também se entrelaçam. Sons que atravessam a Ásia, a Europa, a América do Norte, a América Latina e a África se reconhecem uns nos outros.
Do Japão e da Coreia do Sul às paisagens musicais da Alemanha, Itália, Inglaterra, Rússia, Hungria, Suíça, Polônia, Bélgica, França e Espanha; dos Estados Unidos e do Canadá às múltiplas vozes da América Latina — Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Costa Rica, Venezuela, Paraguai e México — até chegar à África, com Moçambique, e às tradições da Macedônia do Norte. No Femusc, o mundo não é dividido por continentes: ele é costurado por melodias.
Nesse grande tecido sonoro, as compositoras ocupam um lugar de especial ressonância. Grazyna Bacewicz atravessa o século 20 com sua escrita vigorosa; Alice Terzian e Eliana Echeverry trazem identidades marcadas pelo diálogo entre culturas; Violeta Parra transforma tradição em permanência; Catarina Tembe faz ecoar a força africana.
Josefina Acosta de Barón e Clotilde Arias conectam história e sensibilidade latino-americana; Deborah Henson-Conant, Kim Robertson e Nancy Gustavson ampliam fronteiras tímbricas; Patricia Morehead e Regina Baiocchi exploram a expressividade contemporânea; Javera Campos imprime novos gestos sonoros, e Elsa Pulgar Vidal revela paisagens musicais que parecem nascer da própria terra. Cada uma delas escreve não apenas partituras, mas territórios.
O Femusc 2026, ainda em construção, já reúne 71 novos compositores em 741 obras distribuídas ao longo de 240 concertos. Mais do que números, são linhas que se cruzam: estilos que se reconhecem, séculos que se escutam, lugares que se encontram.
A diversidade, aqui, não é uma meta isolada nem um discurso pronto. Ela é fruto de confiança, na escuta, na troca e na visão de cerca de 400 participantes que ajudaram a desenhar essa programação plural.