O cenário eleitoral costuma aumentar a incerteza econômica. O dólar tende a subir em 2026? O que isso significa para preços e consumo?
Andréa Angelo – O cenário eleitoral de 2026 será um dos principais vetores de performance para o mercado brasileiro. Historicamente, períodos de sucessão presidencial elevam a volatilidade, pois investidores estrangeiros reajustam suas posições com base nas promessas de novas políticas fiscais e econômicas. Como o mercado antecipa riscos, o dólar tende a oscilar conforme a viabilidade dos candidatos e a expectativa destes com o comprometimento deles com o equilíbrio das contas públicas. Em termos práticos, se houver percepção de aumento do risco fiscal, a tendência é de depreciação da moeda brasileira, o que impacta diretamente os preços de itens importados, componentes eletrônicos e commodities cotadas globalmente.
No âmbito do consumo, o impacto dessa volatilidade cambial atua como uma pressão altista sobre a inflação. Nosso cenário de riscos para 2026 considera forças opostas: por um lado, pacotes de estímulo típicos de anos eleitorais podem ter um efeito pontual de alívio no bolso; por outro, a desvalorização do real frente ao dólar encarece a cadeia produtiva. Além disso, monitoramos a inflação de alimentos como um fator de risco estrutural que, embora menos ligado à política, pode se somar à instabilidade do período eleitoral, reduzindo o poder de compra da população e tornando o consumo mais seletivo.

Estrategista em inflação da Warren Investimentos, Andréa Angelo | Foto: Divulgação
Quais são hoje os principais riscos e oportunidades que o país carrega para chegar a 2026 em uma situação econômica mais favorável?
Andréa Angelo – No radar de riscos, a inflação de alimentos e a volatilidade cambial ocupam o centro das atenções. Após um 2025 de oferta abundante, que manteve o IPCA de alimentação em patamares baixos (estimamos que termine em 1,4% em 2025), o cenário para 2026 aponta para uma contração da oferta, especialmente no setor de proteínas (carnes), com tendência de alta no índice de preços. Somado a isso, o desafio fiscal permanece relevante; o cumprimento da meta para 2026 não é trivial, dada a complexidade política para aprovar medidas que ampliem a arrecadação e garantam o equilíbrio das contas públicas.
Por outro lado, o Brasil deve iniciar 2026 com a inflação dentro da meta (projeção de 4,2% para o fechamento de 2025, respeitando o teto estabelecido pelo Banco Central), o que preserva o poder de compra. Além disso, há possibilidade de que pacotes de estímulo devido ao ano eleitoral possam atuar como um impulsionador do bem-estar e do consumo das famílias. Adicionalmente, vale mencionar que o país entra em 2026 com o crescimento ainda forte, acima de 2% ao ano.
Como avalia a perspectiva para renda das famílias brasileiras em 2026?
Andréa Angelo – A perspectiva para a renda das famílias brasileiras em 2026 é de uma possível recuperação leve de compra. O principal motor dessa melhora é a nova faixa de isenção do Imposto de Renda, que desonera pessoas com renda até R$ 5 mil, aumentando a parcela do salário que fica disponível para o consumo imediato. Alguns estudos mostram um acúmulo mensal de renda em torno de R$ 300 reais ao mês pelo subsídio. O cenário, somado a possíveis programas de transferência de renda e incentivos ao consumo típicos de anos eleitorais, cria um ambiente favorável para o aumento do bem-estar social no curtíssimo prazo.
Como a política de juros pode afetar o consumo das famílias e o crédito para as empresas?
Andréa Angelo – A política de juros é um fator relevante, que pode ser entendido como “freio” ou “acelerador” do consumo das famílias. Para 2026, a expectativa é que a Taxa Selic comece uma trajetória de queda, o que gera os seguintes impactos:
Consumo das famílias: juros menores reduzem o custo das parcelas em compras de bens duráveis (como eletrodomésticos e veículos). No entanto, vale ressaltar que o efeito não é imediato; as famílias sentem o alívio no bolso conforme as novas taxas de mercado são repassadas pelos bancos. Vale ressaltar que, no momento, a Selic está em 15% e nossa expectativa de cortes é no final do primeiro trimestre de 2026. Assim, o efeito para famílias e empresas deve ocorrer mais ao longo do segundo semestre. Economia tem defasagem relevante. Além disso, juros mais baixos podem ajudar a questão do endividamento doméstico. O Brasil hoje enfrenta um nível recorde de comprometimento de renda. Juros menores podem facilitar a renegociação de dívidas e a redução do custo do rotativo do cartão de crédito.
Crédito para empresas: pensando no setor produtivo, a queda dos juros tende a reduzir o custo do capital. Com isso, há incentivo de empresas retomarem investimentos em expansão. O Banco Central projeta uma expansão do crédito para empresas em torno de 8,6% em 2026, com desaceleração em relação à projeção de 2025 (9,4%) segundo o relatório de Política Monetária, divulgado na última semana.
O pequeno e médio empreendedor tende a encontrar mais ou menos dificuldades nos próximos anos?
Andréa Angelo – O pequeno e médio empreendedor vivem um momento de transição entre dois cenários distintos. Em 2025, a realidade é de maior restrição: com a Selic no patamar de 15%, o custo do capital para pessoas jurídicas acumulou um repasse de 4,2 pontos percentuais. Já a perspectiva para 2026, com a sinalização de que o repasse da alta da Selic foi finalizado e a expectativa de cortes a partir do primeiro trimestre, o cenário deve migrar de um “freio” para um “estímulo”. A queda dos juros pode facilitar a retomada de investimentos em expansão. Somado a isso, o alívio no bolso das famílias, via queda dos juros e programas governamentais (como a isenção do IR) deve gerar melhora no poder de compra, o que tende a aquecer a economia.
Que conselho daria para o leitor se preparar economicamente para 2026?
Andréa Angelo – O conselho central para o leitor é de prudência e planejamento, especialmente na primeira metade de 2026. Como o cenário eleitoral tende a gerar volatilidade no dólar e a queda dos juros leva tempo para chegar ao bolso do consumidor, o momento ideal para “apertar o cinto” é agora. Manter uma reserva de emergência sólida ajudará a enfrentar as oscilações nos preços de itens básicos, como alimentos, que podem sofrer pressão de oferta durante o ano. Por outro lado, o leitor deve estar atento às janelas de oportunidade que podem surgir ao longo do período. Com a expectativa de uma inflação controlada, alívio trazido por medidas de incentivo ao consumo, juros mais baixos e isenções tributárias, pode haver espaço maior para o consumo consciente e investimentos de longo prazo. No entanto, a estratégia ideal é sempre agir com disciplina financeira.