A arrecadação de ISS (Imposto sobre Serviço) ligada ao setor de tecnologia disparou nos principais municípios de Santa Catarina entre 2019 e 2024. Os dados do Observatório ACATE mostram que, em cinco anos, Florianópolis triplicou o valor arrecadado, Blumenau cresceu mais de dez vezes e Chapecó avançou 275%. No comparativo mais recente, entre 2023 e 2024, a tendência de alta também se confirma na maior parte das cidades analisadas, reforçando o avanço da economia da inovação no estado.
Em Florianópolis, principal polo tecnológico catarinense, a arrecadação saltou de R$ 44,4 milhões em 2019 para R$ 146,4 milhões em 2024, crescimento de 230%. No comparativo anual, o avanço foi de 27% em relação a 2023, quando o município havia arrecadado R$ 115,4 milhões. A região da Grande Florianópolis concentra cerca de um terço das empresas de tecnologia do estado e também lidera a geração de empregos no setor, segundo dados do Observatório ACATE.
No Vale do Itajaí, o crescimento também é acelerado. Blumenau apresentou o salto mais expressivo do período: passou de quase R$ 5 milhões em 2019 para R$ 58,7 milhões em 2024, alta de 1083%. O avanço inicial esteve associado à instalação de grandes empresas de tecnologia no município, mas o crescimento observado entre 2023 e 2024 (+12%) indica a consolidação de uma base mais diversificada, sustentada por um ecossistema regional robusto, que reúne empresas, mão de obra qualificada e integração com a indústria tradicional. Já Itajaí avançou de R$ 15,1 milhões para R$ 47 milhões entre 2019 e 2024 (+210%) e cresceu 20% entre 2023 e 2024, refletindo a combinação entre logística, serviços corporativos e tecnologia aplicada a setores estratégicos da economia local.
No Norte do estado, Joinville ampliou sua arrecadação de R$ 48,9 milhões em 2019 para R$ 88 milhões em 2024, crescimento de cerca de 80% no período. Após atingir um pico de R$ 92,4 milhões em 2023, o município registrou uma variação de -4,7% em 2024, mantendo, ainda assim, um patamar elevado de arrecadação. Com forte base industrial, a cidade vem ampliando gradualmente a presença da tecnologia como elemento complementar à sua matriz econômica, em um movimento de diversificação produtiva.
No Oeste, Chapecó apresentou um dos crescimentos mais acelerados do estado. A arrecadação passou de R$ 3,9 milhões para R$ 15,1 milhões em cinco anos (+282%), com avanço adicional de 26% entre 2023 e 2024. O desempenho acompanha a expansão do número de empresas e empregos na região e reflete a incorporação crescente da tecnologia como vetor de modernização de setores tradicionais, especialmente ligados ao agronegócio e aos serviços.
Outros municípios também ampliaram sua participação na economia da tecnologia. Rio do Sul passou de R$ 1,9 milhão em 2019 para R$ 5,5 milhões em 2024 (+197%), mantendo estabilidade no último ano. Lages passou de R$ 1,4 milhão para R$ 2,3 milhões no período, com crescimento moderado. No Sul, Criciúma chegou a R$ 28,2 milhões em 2023, mais do que dobrando o valor registrado em 2019, em uma região que vem ampliando o número de empresas de tecnologia nos últimos anos.
Segundo Diego Ramos, presidente da ACATE, os resultados refletem a consolidação do modelo catarinense de inovação. “O avanço da tecnologia em diferentes regiões do estado é um ativo estratégico para Santa Catarina. A descentralização permite que os ecossistemas locais se especializem, criem soluções próprias e atraiam talentos. O resultado é um setor mais resiliente, menos dependente de uma única região e capaz de gerar impacto econômico em escala regional.”
Para César Griebeler, vice-presidente de Integração da ACATE, os dados também evidenciam o papel do poder público no fortalecimento desses ecossistemas. “A tecnologia é um vetor de transformação econômica para os municípios. É uma indústria que gera empregos qualificados, salários acima da média e impacto direto na arrecadação, sem os custos ambientais de outros setores. À medida que as prefeituras passam a compreender melhor esse potencial, a tecnologia ganha espaço como pilar estratégico do desenvolvimento local.”
Reforma tributária e os impactos para os municípios
A partir de 2026, com a entrada em vigor da reforma tributária, o ISS (municipal) e o ICMS (estadual) serão substituídos pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), alterando a lógica de arrecadação no país. A mudança tende a afetar de forma diferente os municípios, especialmente aqueles com maior concentração de atividades ligadas a serviços e tecnologia, que hoje arrecadam na origem. Ao mesmo tempo, a expectativa é de um sistema mais simples, previsível e transparente, alinhado a modelos já adotados em economias mais maduras. Para Griebeler, o novo modelo deve trazer um período de adaptação, mas também abre oportunidades para o setor de tecnologia.
“A reforma muda a lógica de concentração das receitas e pode gerar impactos distintos entre os municípios, especialmente no início. Por outro lado, há uma expectativa de maior simplificação, previsibilidade e maturidade do sistema tributário. Esse é um movimento necessário. Para as empresas de tecnologia, também surge a oportunidade de ampliar mercados, olhar além do regional e fortalecer a atuação internacional como forma de equilibrar esse período de transição”, afirma.