Eleito no segundo turno com 55% dos votos válidos e uma pauta fortemente voltada para o liberalismo econômico, a eleição de Jair Messias Bolsonaro (PSL) foi recebida com furor pelo mercado. Na segunda-feira (29), logo após as eleições, o dólar chegou a cair a R$ 3,586, enquanto o iBovespa passou da linha dos 90 mil pontos durante o pregão do dia.

Ao longo do dia, no entanto, a euforia passou e os indicadores entrarem em queda, fechando o pregão pós eleição com dólar em R$ 3,706 e o iBovespa em 83.796 pontos. No resto da semana, dólar operou em estabilidade, fechando a semana em R$ 3,693, enquanto Bovespa seguia em alta expressiva, fechando na quinta-feira em alta histórica de 88.419 pontos.

A semana foi marcada por forte especulação e ansiedade quanto ao gabinete do presidente eleito, levando a oscilações no mercado e criticas de setores empresariais, particularmente quanto a fusão de ministérios. Em contrapartida, a nomeação do juiz Sérgio Moro para o ministério da Justiça, na quinta-feira, foi recebida com entusiasmo.

Na quarta-feira (31), o presidente eleito recebeu visita do presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Nabhan Garcia. Após reunião de quase duas horas, Garcia disse que o futuro presidente ainda não decidiu se vai fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

“Não tem nada confirmado sobre a união dos dois ministérios. Existe a possibilidade dos dois ministérios seguirem separados como existe a possibilidade de seguirem em uma fusão. Não tem nada definido, pelo menos foi isso que o presidente me disse", disse Garcia.

O deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e futuro ministro da Casa Civil anunciou a fusão dos ministérios. Os atuais ministros do Meio Ambiente e da Agricultura se manifestaram contrários à união das pastas.

Fusão de ministérios gera debate

Nesta terça-feira (30), os ministros do presidente eleito confirmaram a fusão dos ministérios da Fazenda, do Comércio e Indústria e do Planejamento em uma única pasta, a da Economia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota contrária à decisão.

Segundo a entidade, é "imprescindível" que o Brasil tenha um ministério forte e independente para elaborar, executar e coordenar políticas públicas para o setor industrial.

Foto Divulgação

"Tendo em vista a importância do setor industrial para o Brasil, que é responsável por 21% do PIB nacional e pelo recolhimento de 32% dos impostos federais, precisamos de um ministério com um papel específico, que não seja atrelado à Fazenda, mais preocupada em arrecadar impostos e administrar as contas públicas", afirmou o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, em nota.

A excessiva concentração de funções em um único ministério reduziria a atenção sobre temas cruciais para a indústria, que ficariam diluídos em meio às demandas maiores da macroeconomia, acredita a CNI.

Fiesc tem boas expectativas, Acijs prefere esperar

O vice-presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) para o Vale do Itapocu, Célio Bayer, espera do próximo governo um controle maior de gastos públicos. "Somente com um superávit fiscal será possível gerar riquezas, emprego e melhor renda para a população seja em termos de estado como no país", explica.

Ele avalia que também é preciso que os novos governos estadual e federal eliminem a burocratização, flexibilizem as questões trabalhista e tributária, e que se aprove a reforma da Previdência para ter condições de alcançar o equilíbrio das contas públicas.

"A classe empresarial aguarda por medidas que possam ser anunciadas permita a retomada de investimentos em áreas essenciais ao desenvolvimento com sustentabilidade, como na infraestrutura, na saúde e na educação", diz.

O presidente da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (Acijs), Anselmo Ramos, frisa que faltam informações concretas sobre como será a futura administração do presidente eleito. Segundo o empresário, é preciso esperar por mais definição do governo antes de avaliar prognósticos.

Negociação será importante, dizem analistas financeiros

Layon Dalcanali, sócio fundador da Patrimono, escritório ligado à XP Investimentos, frisa que a vitória de Bolsonaro não é carta branca para o seu governo.

"Jair não ganhou com vantagem expressiva, isso é algo para que ele e sua equipe possam refletir até o fim do ano e deem início a 2019 com todo fôlego para trabalhar. Com 55% dos votos válidos, o partido deve entender que não pode atuar da forma que quiser. É preciso aprender a negociar com o congresso, pois as pautas necessitam de aprovação", destaca.

Em um processo eleitoral marcado por forte abstenção - 21% do eleitorado não compareceu ao pleito - e grande número de votos nulos, o presidente eleito teve um total de 57,79 milhões de votos, contra os 47 milhões de seu oponente, Fernando Haddad (PT).

A avaliação da XP ressalta que a onda de renovação pode trazer problemas. "Muitos eleitos são completamente inexperientes em relação ao funcionamento da máquina pública. Podemos ter problemas e até retrocessos em alguns casos. Mas o fato é que os eleitores estão preferindo tentar algo novo, pois o velho já não está agradando", afirma.

"O Mercado aguardou ansioso a confirmação da vitória do presidente-eleito Jair Bolsonaro. O principal índice da bolsa brasileira já havia subindo 8% em outubro prevendo a vitória", avalia Rafael Lehmkuhl, sócio da Sherpa Wealth Guides. Em sua avaliação, a queda registrada na segunda-feira pós eleição foi uma correção de uma certa afobação vista no domingo.

Ele destaca que o otimismo atual pode se reverter caso as propostas do presidente eleito não se concretizem e algumas pautas de interesse do mercado podem ser resolvidas ainda no governo Temer.

"Fato é que apenas veremos essa continuação da lua de mel se as propostas se concretizarem. Algumas pautas que podem ser resolvidas ainda este ano e que traria alívio para o mercado: cessão onerosa, reforma da previdência, lei das telecomunicações, Banco Central Independente", pontua.

"Se as expectativas se confirmarem, podemos ter anos muito prósperos, com desemprego caindo, dívida menor, real mais valorizado, volta de superavit primário, e uma menor desigualdade", lembra Lehmkuhl.

Entre EUA e China

O presidente eleito obteve um aliado de peso na segunda-feira (29). Expressando-se pelo Twitter, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que vai trabalhar com Bolsonaro, nas áreas do comércio e das Forças Armadas.

"Tive uma ótima conversa com o recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que venceu a disputa com uma diferença substancial. Concordamos que o Brasil e os Estados Unidos trabalharão juntos no comércio, Forças Armadas e tudo mais!", afirmou no Twitter.

Também na segunda-feira, a China parabenizou nesta segunda-feira o novo presidente eleito do Brasil. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lu Kang, disse que o governo chinês está disposto a continuar a aprofundar a cooperação bilateral, para beneficiar as populações de ambos os países.

"Desenvolver as relações entre a China e o Brasil é, de fato, o amplo consenso de todos os setores em ambos os países", disse Lu, de acordo com a Reuters.

Porém na quarta-feira (31), o governo chinês manifestou seus receios quanto ao presidente eleito através do seu jornal oficial, o China Daily. Em editorial, fez um duro alerta ao presidente eleito e frisou que caso o Brasil siga a linha de Donald Trump, rompendo laços com Pequim, quem sofrerá será a economia brasileira.

Segundo o editorial, as exportações brasileiras "não apenas ajudaram a alimentar o rápido crescimento da China, mas também apoiaram o forte crescimento do Brasil".

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