Em meio à concorrência acirrada do mercado global, um movimento silencioso, mas intenso, tem mostrado que mesmo no mundo dos negócios é por meio da união que se faz a força. A chamada economia colaborativa, assim como o nome sugere, aposta na utilização ou na construção coletiva de bens e serviços como uma forma de impulsionar - e, por que não, revolucionar? - o mercado, unindo pessoas em prol de um avanço conjunto. Criada a partir do conceito de consumo colaborativo, a ideia de um empreendedorismo baseado no apoio mútuo e na divisão do espaço tem ganhado corpo na região graças a empreendedores ousados e dispostos a quebrar os paradigmas do mercado tradicional. Munidos de arte, ativismo e uma gama variada de produtos de cunho artesanal, estes empreendedores se esforçam para oferecer uma experiência completa de valorização e consciência social, tudo isso por meio das chamadas feiras colaborativas. É o caso da publicitária Larissa Neumann, de 26 anos, que encontrou no trabalho colaborativo uma maneira de crescer e impulsionar as oportunidades para aqueles que a acompanham. Foi a partir do contato com outras culturas e maneiras de ver o mundo que Lari (como é conhecida) criou o Escambau, uma feira que reúne decoração, comida, arte, acessórios e tatuagens em uma experiência de consumo mais consciente, sustentável e, por que não dizer, significativa. A ideia é antiga, mas a feira teve início no fim do ano passado. Desde então, foram dez edições (uma por mês), dezenas de produtores impactados e centenas de pessoas conquistadas pela proposta. “A ideia foi juntar pessoas diferentes, trazendo arte, estimulando manifestações culturais, ocupando o espaço de forma unificada, sem diferenciação. O público está buscando algo diferente e, apesar de nem sempre um local estar preparado para propostas inovadoras, é insistindo que vamos difundindo estas ideias”, defende Lari. Desde o início, o projeto foi estruturado com base na colaboração: enquanto um amigo cede o equipamento de som, outro disponibiliza o espaço e assim se cria uma rede de trabalho capaz de beneficiar a todos. “Eu acredito que hoje ninguém faz nada sozinho. Na hora de empreender, se você não tem parceiros ou pessoas que te apoiem, você fica estagnado. Cada vez mais enxergamos que essa troca só enriquece o mercado e nós mesmos como pessoa, pelas trocas e aprendizados que nos possibilita”, diz ela. E não é só a Lari que pensa desta forma: no ano passado, uma pesquisa realizada pela IE Business School mostrou que o Brasil é líder latino-americano em iniciativas de economia colaborativa, seja por meio do compartilhamento de serviços pela internet, ou pela criação de espaços de uso coletivo. Aqui na região, iniciativas como a criada por Lari tem surgido com diferentes formatos e propostas, mas sempre voltadas para a criação conjunta. É o caso da Feirinha da Servidão Wollstein, em Blumenau; da Feira Vegana de Corupá; do mercado de pulgas da Extranoica, em Jaraguá do Sul; ou do Se Essa Rua Fosse Minha, de Timbó - exemplo é o que não falta. “Vejo que o público está cada vez mais apoiando estas ideias. Os empreendedores estão entendendo que esse negócio de concorrência não existe. Se você se dedicar, sempre vai ter um diferencial para se colocar no mercado, e é no apoio coletivo que crescemos cada vez mais. É uma forma de todo o mundo se fortalecer junto, partindo daquela ideia de que aos poucos vamos mudando o mundo localmente”, ressalta Lari.

“É uma forma de todo o mundo se fortalecer junto, partindo daquela ideia de que aos poucos vamos mudando o mundo localmente.”

Larissa Neumann

Na décima edição, a feira Escambau foi criada com na base da colaboração, enquanto um expositor cede o equipamento de som, outro disponibiliza o espaço e assim se cria uma rede de trabalho capaz de beneficiar a todos e atrair um público que busca experiências diferentes | Foto Fernanda Mattos/Divulgação/OCP
Valorização do trabalho manual atrai artistas e artesãos No mundo dos negócios, não é segredo que quem não é visto não é lembrado. Divulgar o trabalho é tão importante quanto oferecer um bom produto ou serviço, premissa válida para empresas de qualquer setor ou tamanho. E é justamente a oportunidade de divulgar a marca para públicos cada vez mais diversificados – e antenados – que torna as feirinhas colaborativas um ótimo negócio para artesãos e artistas locais, especialmente aqueles que estão começando sua trajetória como empreendedores.
Priscila na feira do Escambau, onde conquista paladares de veganos e vegetarianos com suas receitas especiais | Foto Fernanda Mattos/Divulgação/OCP
Foi nos estandes de feirinhas como o Escambau, por exemplo, que a cozinheira Priscila Dal Bosco, de 35 anos, conseguiu ampliar sua rede de networking e impulsionar a venda de seus produtos, voltados para o público vegano e vegetariano. Desde 2013, quando a empreendedora começou a se aventurar pela cozinha, já foram muitos eventos para a conta: de Blumenau a Brusque e Corupá, os sanduíches, tortas e molhos da cozinheira já levaram sabor a muitos paladares. Para Priscila, as feiras colaborativas são uma ferramenta de incentivo importante para quem está entrando no mundo dos negócios. Segundo ela, mesmo quando há planejamento, o começo é sempre marcado por muitos percalços e um espaço que ofereça apoio e divulgação pode ser a diferença entre a continuidade ou não de um projeto. “Sou entusiasta da economia colaborativa e do cooperativismo. Dar visibilidade a quem está começando, mesmo que na informalidade, é uma forma de impulsionar a pessoa a persistir nos sonhos. E assim as pessoas entram em contato, se associam, se ajudam, trocam experiências e informações”, acredita a empreendedora, que está entre as principais parceiras do Escambau desde a segunda edição do evento.

“Sou entusiasta da economia colaborativa e do cooperativismo. Dar visibilidade a quem está começando, mesmo que na informalidade, é uma forma de impulsionar a pessoa a persistir nos sonhos.”

Priscila Dal Bosco

Mais do que divulgar o trabalho dos artesãos, as feiras também promovem a valorização dos produtos feitos de forma manual e artesanal, afirma o estudante de design gráfico Cleber Leite, de 29 anos. Segundo ele, enquanto feiras comerciais cobram “valores exorbitantes” e muitas vezes não abrem espaço para artesãos de menor porte, os eventos colaborativos adotam uma postura mais inclusiva e voltada para a produção regional. No caso de Cleber, a aventura pelo mundo do empreendedorismo começou em agosto do ano passado, quando, ao lado do companheiro Luiz Fernando Nunes, de 26, fundou a Fitorama, uma marca especializada em mini jardins e terrários artesanais, sediada em Joinville. Desde lá, foram as feiras colaborativas as grandes responsáveis pelo crescimento do negócio, que em maio deste ano chegou a Jaraguá do Sul pela primeira vez. “A oportunidade de encontrar um novo público em outra cidade é muito importante pra nós. Eu me identifico muito com a identidade do evento [Escambau], o público sempre passa um feedback muito importante e mesmo em dias que as vendas não são muito boas a sensação é boa por estar com um público educado e que dá valor à arte e ao trabalho do artesão”, diz Cleber. “A nossa imagem fica bastante fortalecida, pois é isso que a economia criativa e coletiva proporciona, todos se ajudam em busca de benefício mútuo”, complementa. Trabalho social e ativismo dão um tom especial aos eventos Muito mais do que proporcionar um espaço para a comercialização de produtos, as feiras colaborativas carregam consigo o DNA da diversidade e do ativismo social. Nestes espaços, o que vale é a inclusão e a colaboração mútua, bandeiras que também ajudam na formação de um público mais consciente e de um futuro mais sustentável. Em muitos casos, o cunho social vem antes mesmo do aspecto econômico, como é o caso da Feira Afrodite, criada pelo empresário Diego Nens, de 30 anos. “A ideia iniciou-se numa roda de conversa entre amigos. Nosso objetivo principal é em cada edição trabalhar um bem social, seja ele animal, humano ou até ambiental, com arrecadação de doações financeiras e de suprimentos. A ideia é gerar um bem social para a cidade, sempre dando prioridade ao amor e à diversidade”, conta ele. O nome da feira, Afrodite, é uma homenagem à deusa do amor, o que, segundo Nens, reforça ainda mais a proposta de um espaço inclusivo e pautado no bem-estar social. “Acima de tudo queremos um espaço para as pessoas se sentirem felizes. O dinheiro é bom, com certeza, e é super válido o giro que isso traz para a economia, mas ver no rosto a felicidade de uma marca própria vendendo e tendo seu trabalho valorizado é muito mais”, afirma Nens. A primeira edição do evento está marcada para o dia 7 de setembro, no estabelecimento do empresário.
 "O objetivo é fazer as pessoas entenderem o quanto é importante e legal valorizar o que temos aqui, que é feito sem mão de obra escrava ou sem preços abusivos", diz Alexandra Schiochet, da Amei | Foto Divulgação/OCP
Para a também empresária Alexandra Schiochet, de 26 anos, o maior objetivo deste tipo de feira é mostrar que por meio da união é possível fazer a diferença tanto na vida de quem vende, quanto na de quem prestigia. Sócia-proprietária de uma loja de roupas de Jaraguá do Sul, Alexandra é uma das pessoas à frente do Tudo Junto e Misturado, um evento criado por um grupo de jovens em abril deste ano. “O objetivo é fazer as pessoas entenderem o quanto é importante e legal valorizar o que temos aqui, que é feito sem mão de obra escrava ou sem preços abusivos. Todos que participam mostram produtos que realmente têm histórias e que fazem a diferença no seu modo de produzir, vender ou comunicar”, explica ela. A vontade de fazer a diferença surgiu há quatro anos, quando Alexandra e a sócia, Elaine de Moura, de 29 anos, criaram dentro da própria loja um espaço para as pessoas mostrarem seus produtos. “Ao longo dos anos fomos fazendo alguns eventos na loja e convidando pessoas para participar sem custo e esta ideia foi crescendo”, conta Alexandra. Como todo o evento é construído totalmente de forma colaborativa, os participantes não precisam pagar inscrição, já que cada um colabora com o próprio trabalho.

“Vamos colocando no papel as ideias de todos. É um evento que não tem dono. É gratificante ver o quanto esses eventos podem mudar a maneira que consumimos, como interagimos e como fazemos a nossa cidade e região caminhar.”

Alexandra Schiochet