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Estudo aponta riscos da expansão das apostas esportivas on-line no Brasil

Foto: Joe

Por: Pedro Leal

12/01/2026 - 16:01 - Atualizada em: 12/01/2026 - 16:15

O crescimento de apostas esportivas, popularmente conhecidas como bets, vem funcionando como uma forma de transferência líquida de renda das famílias para plataformas de jogos on-line. Os efeitos mais severos desse fenômeno recaem especialmente sobre as famílias de baixa renda, com participação expressiva de beneficiários do Bolsa Família, grupo para o qual qualquer perda financeira gera impacto imediato no consumo de itens básicos.

De acordo com o levantamento “Panorama das Bets no Brasil: Estudos, Regulação e Evidências Econômicas”, realizado pelo Instituto de Economia Maurílio Biagi da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (IEMB-Acirp) e divulgado neste início de 2026, despesas essenciais com alimentação, vestuário e lazer vem sendo parcialmente substituídas por gastos recorrentes com apostas. Além de comprometer o orçamento familiar e gerar instabilidade financeira, o fenômeno eleva a probabilidade de inadimplência e afeta o comércio local.

De acordo com a Acirp, que integra o G50+, conselho estratégico da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), o levantamento reúne estudos nacionais mais relevantes sobre o assunto e estrutura informações a respeito dos efeitos econômicos e sociais do setor. O relatório também destaca lacunas existentes nos estudos e pontos que ainda demandam investigação.

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“Temos um alerta importante sobre mudanças no comportamento de consumo. Isso afeta tanto o bem-estar dos trabalhadores, que acabam se endividando ao tentar lidar com as finanças pessoais por meio da sorte, quanto as empresas, que perdem a circulação dessa renda no comércio local”, afirma Sandra Brandani, presidente da Acirp Ribeirão Preto.

Perfil vulnerável

Dados da consultoria PwC, citados no estudo, indicam que, nas classes C, D e E, 76% dos gastos que antes eram destinados ao lazer e 5% dos recursos voltados à alimentação estão sendo redirecionados para apostas on-line. De acordo com as informações do levantamento, o volume anual gasto pelas famílias com bets já alcança entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões.

O perfil predominante do apostador é de homens jovens, entre 18 e 30 anos, de baixa renda. Essa vulnerabilidade se reflete no endividamento: 58% dos apostadores possuem dívidas em atraso há mais de 90 dias.

O relatório também aponta que jovens estão adiando ou abandonando a faculdade em razão dos recursos comprometidos com apostas. O estudo aborda, ainda, riscos associados à lavagem de dinheiro, à manipulação de resultados e ao uso de contas de terceiros.

Movimentações

A Lei nº 14.790/2023, que regulamentou o setor, estabeleceu a cobrança de 12% sobre a receita bruta do jogo (GGR) das casas de apostas e a incidência de 15% de Imposto de Renda (IR) sobre os ganhos dos apostadores.

Dados da Receita Federal mostram que, após a regulamentação, a arrecadação com apostas digitais saltou de R$ 49 milhões no ano passado para R$ 7,9 bilhões em 2025, evidenciando a real dimensão do mercado de bets.

“O crescimento expressivo da arrecadação não deve ser interpretado automaticamente como resultado de uma expansão súbita do consumo, sendo mais consistente com o processo de formalização e de ampliação da incidência tributária sobre um mercado que já operava em larga escala”, analisa o economista Lucas Ribeiro, responsável pela organização do estudo.

Nesse cenário, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimam perdas de até R$ 103 bilhões para o varejo. Por fim, o IEMB-Acirp recomenda o monitoramento permanente do setor, o fortalecimento de ações de educação financeira e a realização de estudos regionais para orientar decisões de empresas e do poder público sobre o tema.

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Pedro Leal

Analista de mercado e mestre em jornalismo (universidades de Swansea, País de Gales, e Aarhus, Dinamarca).