Enquanto milhares de brasileiros seguem em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho, empresas de diferentes setores afirmam enfrentar dificuldades para preencher vagas. O cenário, que parece contraditório à primeira vista, é cada vez mais comum em Santa Catarina e especialmente em regiões industrializadas, como o Vale do Itapocu.
Em Jaraguá do Sul, por exemplo, a estimativa é de que existam entre 3 mil e 4 mil vagas abertas atualmente. Somente na plataforma Jaraguá Mais Empregos, da Prefeitura, são 1.893 oportunidades ativas registradas. Ainda assim, muitos candidatos relatam dificuldades para conquistar uma vaga, mesmo participando de processos seletivos e enviando currículos.
O fenômeno evidencia um descompasso entre o perfil procurado pelas empresas e as condições apresentadas pelos trabalhadores disponíveis no mercado.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação de Jaraguá do Sul, Thiago Sarmanho, o município vive um mercado aquecido e em constante expansão. “Fechamos 2025 com mais de 38 mil admissões e saldo positivo de 898 postos de trabalho. No primeiro trimestre de 2026, o cenário continuou aquecido, com mais de 11 mil admissões”, destaca.
Jaraguá do Sul possui atualmente mais de 76 mil empregos formais, sendo que metade deles está concentrada na indústria, setor que lidera a abertura de vagas e impulsiona a economia regional. Entre as funções mais ofertadas no município estão auxiliar de produção, costura e metalmecânica, além de cargos técnicos ligados à automação e manutenção industrial.
Segundo Sarmanho, esses cargos também estão entre os mais difíceis de preencher, principalmente pela exigência de experiência, qualificação específica e disponibilidade para jornadas em tempo integral, realidade presente em quase 85% das vagas cadastradas. Para tentar reduzir esse descompasso, o município vem ampliando programas de formação subsidiada, como o Qualifica Jaraguá, desenvolvido em parceria com o Senai e empresas locais.
Nova indústria exige formação técnica e habilidades comportamentais
A gerente executiva regional do Sesi, Senai e IEL no Vale do Itapocu, Daren Basso Souza, afirma que a transformação tecnológica da indústria acelerou a necessidade por profissionais mais preparados e multidisciplinares.
“O mercado atual exige uma combinação equilibrada de habilidades técnicas e comportamentais. As empresas valorizam profissionais com conhecimento em automação, programação e análise de dados, mas também observam características como proatividade, responsabilidade, boa comunicação e flexibilidade”, explica.
Ela ressalta ainda que Santa Catarina possui uma das menores taxas de desemprego do país e uma das maiores participações industriais do mercado nacional, o que intensifica a disputa por mão de obra qualificada.
Além da qualificação técnica, empresas também observam aspectos comportamentais e fatores ligados à rotina de trabalho, como disponibilidade de horário, deslocamento e adaptação à dinâmica das empresas.
Do outro lado, jovens e profissionais em busca de recolocação relatam dificuldades para atender às exigências do mercado e conquistar uma oportunidade.
É o caso da estudante de Direito Gabriella Santos, de 19 anos. Após concluir o ensino médio e encerrar seu contrato de jovem aprendiz, ela busca há três meses uma oportunidade na área administrativa.
“As empresas têm vagas em aberto, mas a maioria não chama para entrevista. Muitas pedem experiência na área e faculdade de administração ou contabilidade”, relata.

Estudante de Direito, Gabriella Santos, busca uma oportunidade de trabalho na área administrativa | Foto: Fabio Junkes
Mesmo enviando currículos com frequência, Gabriella afirma sentir dificuldade para entrar no mercado formal. A situação dela se repete entre muitos jovens que possuem escolaridade básica, mas ainda não conseguiram acumular experiência profissional suficiente para atender às exigências das empresas.
Vagas disponíveis
Para reduzir a distância entre as vagas disponíveis e os profissionais em busca de emprego, instituições de ensino e poder público vêm ampliando ações de qualificação e conexão com o mercado. O Senai mantém parcerias com empresas e prefeituras para oferecer cursos técnicos alinhados às demandas reais da indústria, além de programas de aprendizagem, estágios, feirões de emprego e formações subsidiadas.

Senai oferece qualificação profissional alinhada às demandas da indústria | Foto: João Britto Jr/Divulgação/Senai
Também vêm sendo ampliadas as vagas gratuitas e os cursos desenvolvidos sob demanda para empresas da região. Segundo Daren, outro foco está na aproximação dos jovens com a indústria ainda durante a vida escolar.
“Investimos fortemente em ações dentro das escolas públicas e privadas para ajudar os estudantes a enxergarem a indústria moderna como um ambiente de inovação, tecnologia e oportunidades de carreira”, afirma.
Santa Catarina também segue em destaque nacional na geração de empregos. Dados do Novo Caged apontam que o estado criou 41.528 novos postos formais no acumulado de 2026, registrando o terceiro melhor resultado do país. Somente em fevereiro, foram 21.727 novas vagas com carteira assinada. O setor de serviços lidera a geração de vagas, seguido pela indústria.