Maurício Benvenutti, de 37 anos, é escritor, palestrante e empreendedor brasileiro reconhecido internacionalmente. Ele é o autor do livro "Incansáveis", lançado em 2016, best-seller de negócios que está na 5ª edição e conta sobre o mundo da inovação.

O empreendedor ajudou a transformar um pequeno escritório da XP na maior corretora do país e uma das maiores instituições financeiras da América Latina. Em 2015 foi para o Vale do Silício fazer uma pós-graduação. Ele pretendia ficar um ano, mas já está a três anos imerso nesse universo.

Benvenutti está passando por vários cidades para escrever seu novo livro e na sua passada em Jaraguá do Sul, nesta quarta-feira (19), concedeu uma entrevista à Rede OCP News. O empreendedor é sócio da StartSe e Cidadão Emérito de sua cidade natal, Vacarias, no Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista:

 

O que o Vale do Silício tem de tão especial? Como funciona a colaboratividade no vale?

O que faz o vale não é a tecnologia, mas sim a mentalidade, a cultura e a maneira das pessoas se comportarem. O grande adjetivo do Vale do Silício é a desobediência, um lugar onde não se contenta com a mesmice das coisas, quebra paradigmas e questiona o status quo. Desobediência é motor para ideias inovadoras.

Existem características no Vale do Silício que podem ser aplicadas no Brasil?

A rebeldia do vale é muito presente na cultura brasileira. O brasileiro é um povo que vive inúmeras adversidades e encontra formas de resolver seus problemas.

 

Essa rebeldia de querer fazer diferente é algo que existe lá e isso é muito característico do Brasil. Tanto é que os brasileiros são muito bem vistos no Vale. É um casamento quase que natural entre a cultura do vale é a característica do brasileiro.

 Como você vê o mercado de startups em Santa Catarina?

A gente têm polos bem interessante de fomento de empreendedorismo no Brasil, mas eu diria que há mais de 10 anos Santa Catarina iniciou um trabalho de fomentar a inovação, o desenvolvimento de tecnologia e de startups. Isso fez o estado desenvolver um nível de maturidade que talvez seja único no Brasil.

 

Tirando São Paulo, que é o motor da América Latina, Florianópolis é a maior potência em startups no país. Essa região é muito pró tecnologia e fomento de atividades inovadoras.

Qual os passos para identificar uma boa ideia?

O empreendedor tem que se apaixonar pela ideia, mas se você quer fazer uma coisa tem que eliminar o achismo. Tem que rapidamente testar a ideia de um produto ou solução para ver se aquilo tem aceitação no mercado.

 

Eliminando o achismo, é possível saber de uma forma segura se a ideia pode se tornar real. O brasileiro é cheio de ideias, mas a capacidade em transformar elas em bons negócios ainda é um pouco deficiente.

Cada unicórnio (empresas que superam US$ 1 bilhão) tem seu estilo peculiar de fazer negócio. Por exemplo, a Netflix com sua ideia de não ter regra e deixar o funcionário livre, e a Apple que faz o inverso, onde tudo é bem regrado. Qual dos estilos que você conheceu mais te chamou a atenção?

Estilo aberto. Quando você entra na Netflix tem uma parede que diz o seguinte "a única regra na Netflix é não ter regra". Não tem horário para entrar e sair. O salário quem define é o próprio funcionário, inclusive os funcionários da Netflix são estimulados a fazer entrevistas de emprego nos concorrentes para ver seu valor de mercado.

 

Não tem regras de férias, pode tirar um dia, uma semana ou três meses. Para isso acontecer, a empresa usa duas palavrinhas que acompanham sempre o funcionário: liberdade e responsabilidade. Você é livre para fazer o que você quiser, mas é responsável por tudo que faz. Ela não tem regra, gerencia 5 mil funcionários e é líder do seu segmento. Incrível.

No livro "Incansáveis" você comenta que é importante conviver com o erro e aceita-lo para que tenha sucesso. Você acredita que falta esse pensamento no Brasil?

No passado encarar o erro como um fracasso já foi mais comum no Brasil, hoje vem mudando bastante. As falhas fazem parte do processo de melhoria. Se eu quero criar algo diferente, naturalmente vou errar.

 

Tem alguns fundos de investimento no Vale do Silício que investem em empreendedores que já falharam porquê a pessoa que falhou cinco vezes, tem cinco vezes menos chances de errar lá na frente, pois ela vem aprendendo com os erros.

Qual sua opinião sobre o sistema educacional brasileiro? Você pensa que falta estimular o questionamento?

Eu acredito que nosso sistema educacional forma muito mais repetidores de processos do que questionadores do ambiente.

 

O sistema de ensino tem que criar meios para formar questionadores e não simplesmente profissionais que vão ficar repetindo. Somos criados em um meio onde o aluno bom é aquele com resposta pronta.

Em Santa Catarina, startups estão investindo em soluções para agronegócio buscando aumentar a competitividade da agricultura familiar. Como você vê isso?

O agronegócio é o motor da economia brasileira, foi o grande responsável pelo aumento do PIB ano passado. É um setor que usa muito a tecnologia por natureza, com vários segmentos possuindo base tecnológica.

 

Devido ao aumento populacional, em meados de 2050 para alimentar 10 bilhões de pessoas a gente vai ter que produzir uma quantidade de alimento que nós produzimos nos últimos 10 anos.

 

A forma que se faz agricultura hoje vai ter que mudar para conseguir entregar alimentos suficientes a toda população. Isso certamente vai passar por vários processos de automação e essas startups catarinenses já estão vendo isso.

Estamos vivendo uma era onde tudo está mudando muito rápido e as empresas estão tendo que se adaptar constantemente. De que forma você acredita que essa adaptação deve ser feita?

A principal mudança para uma empresa se fazer presente no mundo de hoje de uma maneira competitiva é a mudança cultural. De nada adianta você está do lado das melhores tecnologias do planeta se a sua cabeça não está disposta a questionar valores, questionar princípios, questionar o que te trouxe até aqui, questionar as verdades, questionar os paradigmas.

 

Então, a mudança cultural é o que eu mais vejo hoje. Quando as empresas vão para o vale do Silício, eu apresento esse ambiente todo. Elas voltam para o Brasil, dois meses depois me ligam e falam o seguinte: Eu aprendi muita coisa no vale, voltei para o Brasil para começar a aplicar, mas as pessoas da empresa não falam a mesma língua que eu.

 

Eles não conseguem transmitir o que aprenderam no vale porquê a cabeça é diferente. Então, se não tiver com a cultura de se permitir desaprender algumas coisas e aprender conceitos novos, se isso não tiver presente, olha, pode ter a tecnologia mais poderosa do meu lado que não vou saber tirar proveito disso.

Se você pudesse definir a importância da StartSe para o Brasil, como você definiria?

Quando eu me mudei para o vale tomei um choque de realidade, porquê eu comecei a ver essas empresas como a Netflix, Apple, Facebook, Amazon, tomando a dianteira do mundo. E percebi que elas são criadas e gerenciadas de formas completamente diferente.

 

Eu tive que desaprender muito do que eu aprendi na vida para aprender os novos conceitos colocados no vale senão eu iria ser passado por cima. Então, dessa inquietude de transferir esse modelo de criação e gestão de negócios que surgiu a StartSe na minha vida.

 

A gente transfere esse conhecimento dos principais ecossistemas de inovação do mundo para o Brasil. Nosso principal papel é auxiliar e dar ferramentas de suporte para construção de novos negócios no Brasil. E da mesma forma que auxiliamos as novas startups, nós ajudamos as empresas tracionais.

 

Então, a principal contribuição que a StartSe pode oferecer para o Brasil é transferir esse conhecimento de empreendedorismo, de inovação e tecnologia que acontece nos principais polos do mundo para auxiliar tanto os novos modelos de negócio do Brasil, quanto estabelecimentos e empresas tradicionais que existem em nosso país

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