Jaraguá do Sul tem forte potencial para retomar o crescimento econômico, mas depende de ações do governo federal no corte de despesas públicas e no avanço de privatizações, afirma o empresário Décio da Silva. Ao analisar o cenário econômico, o administrador coloca como necessárias outras medidas, com dificuldades políticas de aprovação, como as reformas trabalhista e da Previdência. Silva observa que a região sofreu com a crise econômica por ter uma matriz ancorada na indústria. Nos últimos 12 meses até maio, Jaraguá do Sul viveu o fechamento de 5,5 mil postos de trabalho. Como consequência da recessão, empresas fizeram ajustes. O pedido de recuperação judicial da Menegotti e a redução de jornada de trabalho na WEG e na Malwee são três exemplos dos impactos. Presidente do Conselho Administrativo da WEG e da Oxford, Silva acredita que a nova equipe econômica do presidente Michel Temer precisa aplicar medidas de incentivo à economia antes do aumento de impostos, como está sinalizado. “Se o governo trouxer impostos antes de ficar claro que efetivamente vai fazer movimentos importantes para a redução de despesas e privatizar, a curva de confiança desaba de novo”, prevê. Comemorando a recente inauguração de uma fábrica de porcelana da Oxford em São Mateus (ES), o empresário afirma que o empreendedorismo e a confiança são os ingredientes mais importantes para a retomada das atividades. Controlada pelas três famílias fundadoras da WEG, de Jaraguá do Sul, a nova unidade no Espírito Santo projeta produzir 9 milhões de peças em 2016 e aumentar o volume para 15 milhões no ano que vem. A exportação é a estratégia de crescimento das vendas de porcelana, assim como ocorre no projeto de expansão das outras empresas do grupo. A fábrica em São Mateus começou as operações em maio e vendeu 700 mil peças para o México. O objetivo é expandir os negócios para o mercado norte-americano e continuar registrando crescimento acima de 10%, afirma o empresário. E o incentivo ao comércio exterior é um dos caminhos para o País voltar a crescer, defende Silva. Ecoando a proposta da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o empresário afirma que o governo deve desonerar os impostos para exportação. A começar pelo retorno da alíquota de 3% do Reintegra, programa que devolve à empresa parte dos impostos pagos com vendas externas. O que permitiu à Oxford inaugurar uma nova fábrica em um momento de recessão no País? A Oxford vive um bom momento e isso é fruto de fortes investimentos nas nossas marcas e um trabalho de segmentação do mercado, entendendo melhor os consumidores. Outro aspecto é o investimento em tecnologia, inovação e design. Um exemplo são as máquinas usadas nas fábricas em São Bento do Sul e agora as mais modernas que fizemos para a unidade de São Mateus (ES), fruto da tecnologia desenvolvida cada vez mais com a equipe da automação da WEG. Por que no Espírito Santo? Queríamos descentralizar a produção. No grupo, já tínhamos uma experiência boa com o Espírito Santo. A WEG está em Linhares há cinco anos. Além disso, o Estado tem o gás, que é um item importante e decisivo como insumo para a produção. E o que vem daqui para frente? Agora é hora que a Oxford se prepara para ir ao mercado norte-americano. O mundo todo quer vender aos Estados Unidos, é um mercado gigantesco e vemos essa expansão no médio prazo. Já temos uma boa posição na América do Sul e a nova fábrica, que está operando há dois meses, já teve um embarque para o México.   Como o senhor avalia o atual momento da economia brasileira? Para o mercado investir e as pessoas consumirem a palavra-chave é confiança. Sentimos uma mudança na curva da confiança, ainda pequena, mas mudou de direção. Acho que vão ser muito importantes as decisões que deverão ser tomadas no Congresso nos próximos meses. O que é preciso ser feito? A Confederação Nacional da Indústria e grande parte das entidades empresariais têm defendido a valorização das negociações trabalhistas entre empresários e funcionários. Outra coisa que precisamos é voltar a crescer no mercado internacional. Precisamos de um câmbio adequado. O que não se pode fazer é política para controlar a inflação tentando deixar o câmbio de uma maneira que não dê competitividade às exportações, como já foi feito. O que queremos é desonerar os impostos das exportações. Mas como isso é muito demorado e complexo, por enquanto é importante voltar o Reintegra à alíquota de 3%. Há ainda um sistema tributário muito complexo. Outra coisa, que é muito delicada e mexe com a vida de milhares de pessoas é achar uma solução para a Previdência. Teremos que achar uma transição, se não o Brasil vai quebrar e nossos filhos não terão aposentadoria. Outra coisa que vai melhorar a confiança dos investidores é o Estado reduzir de tamanho fazendo privatizações. O número de estatais não faz sentido. O governo precisa reduzir fortemente as despesas. Como as empresas podem ser mais transparentes diante de tantos escândalos? Isso foi uma coisa muito grave que assustou toda a população. Temos diversos órgãos em uma organização, alguns para executar, outros para controlar e outros para fazer avaliação de risco. Esses órgãos têm que funcionar e cumprir efetivamente o seu papel, em uma empresa privada ou pública. Quando a região de Jaraguá retomará o crescimento? Em um período curto de tempo, Jaraguá voltará para a rota de crescimento porque existem dois ingredientes muito importantes: uma cidade muito empreendedora e uma população voltada ao crescimento e ao aprendizado. Aos poucos, a situação se ajusta e voltamos a crescer como fizemos nos últimos anos. Isso depende do retorno do crescimento econômico do Brasil. Acredito que os governos vão fazer a lição de reduzir um pouco o tamanho do Estado e buscar mais eficiência.