Quando os preços começam a subir e o desemprego se torna notícia frequente nos jornais, é natural surgir um sentimento de insegurança. Afinal, como garantir que as contas serão pagas e as necessidades básicas sanadas em tempos de tanta instabilidade? Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que entre janeiro e junho deste ano, Jaraguá do Sul perdeu 1.626 vagas de emprego. Se somados os últimos 12 meses, foram mais de 5,6 mil empregos perdidos. O cenário se repete em todo o Estado. Segundo um levantamento da Fecomércio-SC, entre janeiro e junho deste ano a confiança do catarinense em relação à renda caiu 4,3%. Como reflexo, o nível de consumo teve queda de 24,3% no período, o resultado mais baixo registrado pela entidade até hoje. O pior de tudo é que disciplina financeira não é um dos fortes do brasileiro. Conforme o SPC Brasil, apenas quatro em cada dez brasileiros conseguem fechar o mês com dinheiro sobrando, já que a maioria das pessoas não faz acompanhamento orçamentário doméstico. De acordo com o professor de economia e finanças corporativas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Luiz Carlos Lemos Jr., apesar de parecer um bicho de sete cabeças para muitas pessoas, o controle das finanças pessoais é algo relativamente simples e bastante acessível nos dias atuais. Basta um pouco de disciplina e tempo para reavaliar os hábitos nocivos à conta bancária. Reavaliando hábitos de consumo O primeiro grande passo para garantir a segurança financeira da família em tempos de crise é reavaliar os hábitos de consumo. Conforme Lemos Jr., o aumento no nível de desemprego em todo o País exige cautela do consumidor que, muitas vezes, precisa aprender a desapegar de certos hábitos. “No caso dos brasileiros, o supermercado está entre os principais vilões do orçamento. Em geral temos dois problemas: desperdiçamos muito dinheiro no apego às marcas e encaramos a compra como um passeio, de maneira pouco profissional. Por isso, em tempos de crise é importante observar mais o valor da mercadoria do que a marca e sempre prestar atenção ao peso dos produtos que estiver comparando”, aconselha. Para o economista, outro grande vilão é o automóvel, que acumula gastos com combustível, IPVA, seguro, manutenção e, em casos de financiamentos, as prestações. “O ideal é buscar a máxima eficiência no uso, compartilhando o carro com outras pessoas quando possível ou usando alternadamente com o transporte coletivo”, avalia. Para quem está desempregado, a recomendação é se desfazer do carro até que a situação melhore. “O consumidor precisa ter cuidado para não ter o nome ferido no cadastro de inadimplentes. Às vezes é melhor perder o dinheiro de um financiamento do que perder a capacidade de compra”, argumenta Lemos Jr. pagina dupla Controle é a chave do sucesso Outro fator importante é manter um controle detalhado sobre as finanças do lar. Conforme Lemos Jr., hoje existem ferramentas simples que podem ser facilmente acessadas e atualizadas. “Temos aplicativos que fazem esse controle automaticamente e ainda classificam os seus gastos e geram planilhas para ilustrar este movimento. É algo ao alcance de qualquer um, não tem mais desculpa para não fazer”, afirma. De acordo com o economista, o brasileiro ainda peca muito quando o assunto é controle financeiro. Uma pesquisa realizada pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em todas as capitais do País mostrou que 45,8% das pessoas não realizam um controle sistemático do orçamento, sendo que 29,3% fazem as contas “de cabeça”. O estudo também mostrou que 93,5% anotam pelo menos uma vez por mês dados de despesas com supermercado e contas de água e luz, mas apenas 39,5% das pessoas anotam gastos com lazer, alimentação fora de casa, roupas e serviços de estética, por exemplo. Na visão de Lemos Jr., o sistema educacional brasileiro dá poucos subsídios para uma vida adulta financeiramente organizada. Além disso, ele considera os benefícios oferecidos pelas empresas, os chamados “vales”, como um desserviço para o controle orçamentário do lar. “Determinando com quais itens o colaborador vai usar aquele dinheiro, a empresa acaba administrando parte da vida desta pessoa, e isso não contribuiu para a maturidade financeira. O ideal seria a pessoa ter a liberdade de entender sua situação e utilizar os recursos conforme lhe cabe melhor”, analisa. pagina dupla1   pagina dupla2 Cartão de crédito: vilão ou mocinho? Para Lemos Jr., o “papel” do cartão de crédito no orçamento depende diretamente da maneira como o consumidor utiliza esta ferramenta. Segundo ele, existem duas regras de ouro para não tornar o cartão de crédito um vilão: “A primeira é que o limite do cartão não deve exceder 30% da renda líquida do usuário, assim não há risco de gastar mais do que a renda permite”, aconselha. “A segunda regra é evitar ao máximo comprar no prazo. A compra em prestações costuma causar muitos problemas, já que corro o risco de gastar o limite por vários meses seguidos e ficar sem poder de compra por um longe período. O ideal é utilizar o cartão de crédito à vista (para o vencimento). Assim, ele se torna até uma ferramenta de controle do orçamento, uma vez que a fatura mostra exatamente onde o dinheiro foi gasto”, sugere. O economista recomenda a compra a prazo só para a aquisição de bens duráveis, como geladeiras e televisões, por exemplo. Segundo uma pesquisa realizada pela Total Retail e divulgada pela PwC recentemente, o cartão de crédito é o meio de pagamento mais utilizado pelo consumidor brasileiro: 78,5% dos entrevistados citaram o método. Além disso, o volume de compras parceladas no cartão aumentou nos últimos anos no Brasil – em 2014, 47,2% da movimentação de crédito era em compras parceladas, volume que subiu para 51,7% no ano passado.