Os brasileiros gastam mais de 25% da renda com habitação, incluindo água, luz, gás, imposto e aluguel. Já os gastos com o carro próprio consomem 11,5% da renda familiar, à frente de supermercado (10,5%), medicamentos e saúde (6,6%) e alimentação fora de casa (4,6%). A educação, vestuário e calçados, juntos, correspondem a 3,4% do orçamento.

Os dados fazem parte do estudo IPC Maps 2022, no item hábitos de consumo, que mostra as preferências dos consumidores na hora de gastar sua renda. A grande curiosidade é o gasto com carro próprio, que até aumentou em relação a pesquisas anteriores. Na avaliação do professor da UniSociesc, Fabiano Dantas, que também é mestre em economia, alguns motivos explicam a vontade e até a necessidade do consumidor brasileiro em investir no carro próprio.

“Entre tantos motivos eu destaco dois: a demanda reprimida é um deles. Há muitos brasileiros que crescem sendo bombardeados com o sonho de ter um carro, por causa da independência, do status, entre outros fatores. Então essa demanda é estimulada durante boa parte da vida do consumidor, fazendo com que na primeira oportunidade ele faça um esforço para adquirir o sonhado possante. O outro motivo é a qualidade do transporte público, que é um problema no país. Tanto em relação à estrutura, quanto à logística, o sistema é precário na grande maioria das cidades.”

Antes de comprar um carro, vale a pena levar em conta:

  • Condições do veículo: além das condições técnicas é preciso ter cuidado com a situação em termos de documentação e histórico do veículo. É comum a venda de carros que são recuperados de leilão, o que é absolutamente legal, mas é necessário que o comprador saiba disso, pois existem algumas particularidades com relação a este tipo de carro que pode trazer dor de cabeça para o consumidor depois.
  • Pesquisa e negociação: é preciso que o consumidor realize pesquisas sobre o valor do carro e sua média de mercado. Desconfie de valores muito baixos, normalmente se trata de um golpe. É muito difícil alguém vender um carro por 60 ou 70% do valor dele. Além disso, negociar o valor e as condições de pagamento é fundamental. Se o consumidor detém o dinheiro para comprar à vista ou em poucas prestações ele tem um maior poder de barganha.
  • Capacidade de pagamento: em qualquer financiamento que o consumidor faz ele precisa verificar a sua capacidade de pagamento, ou seja, se aquela dívida regular adicional não gerará problemas em seu orçamento. O financiamento de veículo normalmente é feito em períodos longos, 34, 36 ou até 48 meses, então é preciso estar atento para comprometer uma parte do seu orçamento por um período tão longo.

Dantas ressalta que, quando se fala de orçamento doméstico, é importante seguir uma regra de ouro: “não gaste mais do que você ganha”. O problema, segundo ele, é que parece algo fácil, mas não é. “Além da questão da renda, que vem diminuindo no Brasil, tanto em termos nominais, quanto o poder de compra por causa da inflação, tem-se também os fatores psicológicos, a questão do desejo, da compensação por coisas ruins, a influência do marketing, entre outros. É muito comum a frase: ‘Eu trabalho tanto, então eu mereço!’. Por isso é preciso atenção”, ressalta.

Dicas:

  • Controle receitas e despesas: pode ser num caderno, aplicativo, planilha no computador ou qualquer outro meio. Se você não sabe exatamente quanto de recursos entra e quanto sai no mês, fica muito mais fácil perder a linha de vez em quando. Com este controle você consegue visualizar o todo e entender se cabe um novo gasto com o carro ou não
  • Quite as dívidas: se você tem dívidas que geram custo financeiro (pagamento de juros ou multa) é preciso que você quite essas dívidas antes de fazer qualquer consumo extra ou supérfluo. E ao pagar, dê preferência as dívidas que apresentam o maior custo. Elas devem ser pagas primeiro. É claro que não é possível conter gastos essenciais para pagar dívida, então essa classificação é importante.
  • Aproveite os bons ventos: caso haja uma situação de alívio financeiro, por causa de uma nova renda, aproveite para realizar uma reserva de emergência. O ser humano é, em sua maioria, imediatista e esta qualidade se intensifica em momentos de bonança financeira. Gasta-se muito, e poupa-se pouco. Muitas vezes, realmente não é possível poupar, pois os recursos nem são suficientes, mas no caso de uma situação mais confortável é desejável que se construa uma reserva para os momentos mais difíceis.

Em relação ao fato dos brasileiros gastarem pouco com educação, Dantas acredita que a educação ainda não é encarada como um investimento essencial no Brasil.

“Quando é necessário cortar custos, a educação acaba sendo um alvo fácil da população (no caso, o consumidor), das empresas (quando fornecem bolsas ou incentivos) e do governo de forma geral. E isso ocorre porque a educação não dá resultados imediatos. É preciso investir para ter um retorno a médio ou longo prazo e que depende de muitas variáveis. Por outro lado, estudos mostram que um número maior de anos de estudo, gera rendimentos maiores”, lembra o professor.