O preço do aluguel segue em trajetória de alta no Brasil e deve continuar pressionando o orçamento das famílias em 2026. Segundo dados do índice FipeZap, embora o ritmo de crescimento tenha desacelerado — de 13,5% em 2024 para 9,4% em 2025 —, a variação ainda supera mais que o dobro da inflação no período. Para especialistas, o movimento reflete um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda no mercado imobiliário brasileiro.
De acordo com Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, a raiz do problema está no modelo de produção de imóveis no país. “A construção civil no Brasil não produz para locação, ela produz para venda. O estoque de imóveis para alugar é, na prática, um subproduto do mercado: unidades que não venderam ou investidores individuais tentando rentabilizar patrimônio”, explica.
Com a taxa Selic em patamar elevado, atualmente em 15%, até mesmo esses investidores tendem a recuar. “O investidor pessoa física hesita em colocar dinheiro em imóvel para alugar quando o custo de oportunidade é tão alto. Além disso, modelos mais eficientes, como o multifamily — empreendimentos inteiros construídos exclusivamente para locação — ainda representam menos de 1% do mercado brasileiro, enquanto em países como os Estados Unidos são a base do setor. O Brasil simplesmente não abriu essa janela”, avalia Claudino.
Demanda pressionada e mudança geracional
Do lado da demanda, o cenário também contribui para a alta dos preços. A mesma taxa de juros que desestimula a produção de imóveis para locação dificulta o acesso à casa própria. “Quem mora de aluguel e pretendia comprar acaba permanecendo mais tempo no mercado locatício, aguardando condições melhores de financiamento”, afirma o especialista.
Outro fator relevante é a mudança no comportamento das novas gerações. “Há uma escolha racional acontecendo. Se com R$3 mil por mês é possível alugar um imóvel compacto e bem localizado, por que comprometer R$9 mil em um financiamento de 30 anos para ter o mesmo apartamento? Não é imediatismo, é matemática”, pontua Claudino. Segundo ele, muitos jovens ainda desejam a casa própria, mas veem o aluguel como uma estratégia temporária de sobrevivência financeira, até que a conta feche.
A combinação de oferta estagnada, demanda crescente e juros elevados cria um cenário previsível. “Enquanto não houver políticas públicas e incentivos claros para estimular a produção voltada especificamente para locação, além de mecanismos que aproximem o custo do financiamento da realidade da renda das famílias, o aluguel continuará sendo a principal válvula de escape de um mercado que não consegue atender quem quer comprar”, conclui Daniel Claudino.