Infelizmente o anti-iluminismo, ou, no populês, volta à escuridão, no mundo contemporâneo se deve a uma convergência de fatores históricos, culturais e políticos. Sua ascensão reflete uma reação contra os princípios racionalistas, universalistas e progressistas que marcaram o Iluminismo, especialmente em um contexto de crises globais, desilusão com a modernidade e ressurgimento de identidades tradicionais.
1. Crise da razão e desencanto com a modernidade:
O Iluminismo defendia a razão como principal instrumento de progresso, mas o século XX expôs seus limites: guerras mundiais, colonialismo, crises ambientais e a instrumentalização da ciência para fins destrutivos abalaram a fé no racionalismo. A pós-modernidade, com sua crítica às “grandes narrativas”, questionou a noção de progresso linear, abrindo espaço para visões céticas em relação ao projeto iluminista.
2. Ascensão do relativismo e identitarismo:
O universalismo iluminista, que pregava valores como igualdade e direitos humanos baseados na razão, é contestado por movimentos que enfatizam diferenças culturais, étnicas e religiosas. O multiculturalismo, embora em parte derivado do Iluminismo, muitas vezes colide com seu ideal de uma humanidade unificada, fortalecendo discursos particularistas e nacionalistas.
3. Reação contra o liberalismo e a globalização:
A globalização, associada ao cosmopolitismo iluminista, gerou desigualdades e perda de soberania nacional, alimentando movimentos antiestablishment. O liberalismo político e econômico, herdeiro do Iluminismo, é visto por muitos como elitista e desconectado das realidades locais, levando ao crescimento de populismos de direita e esquerda que rejeitam o internacionalismo.
4. Revival religioso e tradicionalismo:
A secularização, outra herança iluminista, enfrenta resistência em sociedades onde a religião mantém forte influência. Fundamentalismos religiosos e tradições conservadoras rejeitam o laicismo e a autonomia individual, defendendo hierarquias e valores comunitários pré-modernos.
5. Crise da democracia e autoritarismo:
A desconfiança nas instituições democráticas e na expertise técnica (como visto no negacionismo científico) alimenta discursos anti-intelectuais. Líderes autoritários exploram esse sentimento, promovendo visões emotivas e maniqueístas em detrimento do debate racional.
Enfim, anti-Iluminismo não é um mero retrocesso, mas uma resposta complexa às falhas e contradições da modernidade. Seu crescimento sinaliza uma busca por alternativas à razão instrumental, seja no comunitarismo, na espiritualidade ou no nacionalismo. No entanto, seu desafio ao universalismo e ao pluralismo democrático representa um risco à coexistência pacífica em sociedades cada vez mais fragmentadas.