Um caso raro de transmissão de raiva por transplante de órgãos resultou na morte de um homem de 76 anos nos Estados Unidos e levou autoridades de saúde a revisarem protocolos de triagem para doadores. A vítima, Barney Kurowicki, recebeu um rim de um doador cuja infecção pelo vírus não havia sido identificada antes da captação dos órgãos.
A investigação conduzida pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontou que outras três pessoas também receberam tecidos provenientes do mesmo doador. Elas passaram por tratamento preventivo e não desenvolveram a doença.
O doador era James Martin, de 59 anos, morador do estado de Idaho. Segundo o relatório das autoridades sanitárias, ele teria sido arranhado por um gambá enquanto tentava proteger um filhote de gato em sua propriedade rural, em outubro de 2024. Como acreditava não ter sido mordido pelo animal, não procurou atendimento médico.
Cerca de seis semanas depois, Martin começou a apresentar sintomas neurológicos graves, como confusão mental, alucinações e dificuldade para engolir. O quadro evoluiu rapidamente até a morte cerebral, declarada em dezembro daquele ano.
Após sua morte, órgãos e tecidos foram destinados a pacientes que aguardavam transplante. Como os testes de rotina realizados em doadores não incluem a detecção da raiva, a infecção passou despercebida.
Kurowicki recebeu o transplante renal e, aproximadamente cinco semanas depois, passou a apresentar tremores, fraqueza nas pernas, confusão mental e hidrofobia — aversão intensa à água, considerada um dos sintomas mais característicos da doença. Exames realizados posteriormente confirmaram a presença do vírus da raiva. O paciente morreu poucos dias depois.
As investigações também identificaram três receptores de córneas provenientes do mesmo doador. Como medida de segurança, os enxertos foram removidos e os pacientes receberam profilaxia pós-exposição, tratamento capaz de impedir o desenvolvimento da doença quando administrado precocemente. Nenhum deles apresentou sintomas. Um quarto transplante de córnea chegou a ser cancelado antes da realização do procedimento.
De acordo com o CDC, este é apenas o quarto caso documentado de transmissão de raiva por transplante de órgãos ou tecidos nos Estados Unidos desde 1978. Embora a doença seja considerada quase sempre fatal após o aparecimento dos sintomas, ela pode ser evitada por meio de vacinação e tratamento preventivo quando há suspeita de exposição ao vírus.
O episódio levou autoridades sanitárias a discutirem o aprimoramento dos questionários aplicados na avaliação de doadores, especialmente em situações envolvendo contato recente com animais silvestres. Apesar do caso, especialistas reforçam que os transplantes continuam sendo procedimentos seguros e que ocorrências desse tipo são extremamente incomuns.