Um estudo realizado com base em sambaquis e peças do acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville indica que os povos sambaquianos da Baía Babitonga praticavam a caça de baleias há cerca de 5 mil anos. Até então, acreditava-se que esses povos não caçavam e apenas coletavam as carcaças de animais encalhados.
A pesquisa foi capitaneada pelo arqueólogo André Colonese, da Universidade Autônoma de Barcelona, com participação das arqueólogas do museu Dione da Rocha Bandeira e Fernanda Mara Borba e também da coordenadora da unidade, Ana Paula Klahold Rosa. O artigo sobre o estudo foi publicado na última edição da revista científica Nature.
“Os principais resultados estão relacionados à confirmação da prática da caça de baleias pelos povos sambaquianos. Outra questão importante é a cronologia: os resultados indicam que essa prática é mais antiga do que em outras regiões em que se acreditava ter os mais antigos caçadores de baleias, no Ártico e Subártico. Aqui, a gente recua essa cronologia em torno de 1.500 anos”, destaca a arqueóloga Dione da Rocha Bandeira.
Foram analisados materiais de 17 sambaquis da Baía Babitonga e mais de 100 amostras do acervo do museu. Para identificar as espécies de baleias e golfinhos exploradas pelas populações pré-coloniais, os pesquisadores combinaram análises zooarqueológicas, tipológicas e moleculares de ossos e artefatos pertencentes ao acervo do museu.
“Uma das técnicas usadas foi um trabalho de espectrometria de massa em que, a partir do colágeno encontrado nos ossos, você consegue dizer a espécie do animal. Isso é bastante inovador, poucas instituições fazem esse tipo de análise e poucos estudos como esse foram feitos no Brasil”, explica Dione. A pesquisa catalogou 41 novas datações novas dos materiais analisados para a pesquisa.
Ferramentas personalizadas para a caça de baleias
Os resultados da pesquisa mostram que os povos sambaquianos não se limitaram a coletar carcaças de animais encalhados: eles fabricaram ferramentas de caça especializadas, incluindo partes de lanças tipo arpão feitas de osso de baleia, indicando uma prática estruturada de perseguição de grandes presas marinhas.
Os ossos identificados incluem principalmente a baleia-franca austral, mas também vestígios de jubartes e cachalotes, o que sugere que essas comunidades costeiras dominavam o uso de recursos marinhos de grande porte.
“A exploração de baleias era um elemento do conhecimento no Sul do Brasil muito antes do contato com os europeus. É uma história não escrita preservada no acervo do museu e nos sambaquis que sobreviveram aos impactos das atividades humanas modernas”, afirma Ana Paula Klahold Rosa, coordenadora do museu joinvilense.
Além de ampliar a compreensão sobre tecnologia e modos de vida marítimos antigos, o estudo fornece novas perspectivas sobre a distribuição histórica de espécies de cetáceos antes da intensa exploração comercial no último milênio e ressalta a profunda conexão cultural e ecológica entre povos sambaquianos e o oceano.
As peças avaliadas no estudo, como partes de lanças tipo arpão feitas de ossos de baleia, estão disponíveis no acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (Rua Dona Francisca, 600), que atende de terça-feira a domingo, das 10h às 16h.