“Desamarrem seus filhos – Parte II”

Foto: Ai Leino/Pixabay

Por: Raphael Rocha Lopes

03/08/2022 - 16:08 - Atualizada em: 03/08/2022 - 17:12

 

♫ Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei/ Transformai as velhas formas do viver/ Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei/ Mãe Senhora do Perpétuo socorrei” (Tempo rei, Gilberto Gil).

Semana passada falei sobre o tempo. Mais exatamente sobre o tempo que bebês, crianças e adolescentes podem ter em frente às telas de celulares, computadores e televisores. Ou por quais razões é melhor que, dependendo da idade, nem tenham esse tempo.

Mas na retórica e na teoria muitas vezes é difícil imaginar o porquê das preocupações e quais, afinal, poderiam ser os resultados ou consequências do excesso de tempo de telas. Muitos podem até argumentar que há um exagero de cuidados.

E alguns (ou muitos dos) pais que pensam desta forma – de que há preocupações superlativas demais -, desculpem-me a franqueza, são os que buscam certo conforto íntimo para sua ausência ou sua preguiça de serem pais.

Riscos reais

Todas as entidades que mencionei no texto da semana passada são unânimes em dizer que a ausência de controle do tempo de telas para bebês, crianças e adolescentes traz consequências sérias – apesar de uma das instituições ressalvar que ainda não há tempo suficiente de pesquisa para conclusões absolutas.

Pediatras e psicólogos do mundo, incluindo do Brasil, estão destacando alguns problemas mais recorrentes.
Irritabilidade, ansiedade, depressão, sedentarismo, transtornos de déficit de atenção, hiperatividade, transtornos do sono, transtornos de imagem corporal, de autoestima e de alimentação (sobrepeso, anorexia e bulimia), problemas visuais, auditivos e posturais são alguns exemplos.

Os profissionais também alertam para outros problemas, ainda mais graves, que, assim como alguns dos acima, já foram objeto de textos anteriores desta coluna: bullying, cyberbullying, questões envolvendo sexualidade (pornografia, sexting, sextorsão, abuso sexual, estupro virtual), comportamento autolesivos e riscos de suicídio, aumento de violência, uso de drogas (lícitas e ilícitas), incluindo os cigarros eletrônicos.

E tudo pode começar com uma prática aparentemente inofensiva, que é oferecer aos bebês o celular como forma de distração.

Sem radicalismos

A tecnologia e a internet estão aí para ajudar. O importante é dosar. Não dá para simplesmente tirar o computador ou negar acesso à internet para uma criança mais velha ou um pré-adolescente. Eles precisam, inclusive, muitas vezes, para sua rotina educacional.

O equilíbrio é importante. Estudos apontam, porém, que bebês com tempo excessivo de telas chegam aos 36 meses com um desempenho desfavorável em testes de triagens comportamentais, cognitivos e sociais. E quando se fala em telas, as televisões estão incluídas.

E para as crianças maiores, conteúdo importa, ou seja, a qualidade do que elas veem na internet e na TV faz uma gigantesca diferença. Não adianta só limitar o tempo; é necessário acompanhar e saber o que seu filho faz em frente às telas.

Repito o pedido: desamarrem seus filhos das telas e desamarrem-se também! Além disso, amarrem-se a eles, no bom sentido, sem nós, sem sufocá-los, deixando-os aprender e errar, mas com aquele engajamento familiar que nenhuma rede social da internet substituirá.