A depressão na adolescência vai além da tristeza descrita nos manuais diagnósticos tradicionais. É o que revela uma revisão sistemática e metassíntese conduzida por pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento, que analisou dados de 884 adolescentes e jovens, entre 10 e 24 anos, participantes de 39 dos principais estudos desenvolvidos no mundo. A análise mostra que sentimentos como isolamento social, solidão e raiva apareceram de forma recorrente nos relatos em primeira pessoa, embora não estejam explicitamente contemplados nos critérios diagnósticos do DSM e da CID*.
Segundo a pesquisa, a tristeza foi identificada em 92,3% dos trabalhos analisados, confirmando seu papel central no diagnóstico clínico. No entanto, o isolamento social esteve presente em 78,9% dos estudos e a solidão em 69,2%, configurando-se como elementos estruturais da vivência da depressão entre adolescentes. Emoções como estresse e frustração também surgem com alta frequência, além de sentimentos de inutilidade, baixa autoestima, fadiga persistente e desesperança, compondo um quadro mais complexo e multifacetado do sofrimento psíquico juvenil.
“Muitos adolescentes com depressão descrevem um sentimento intenso de deslocamento, sentindo-se separados do mundo, como se houvesse uma barreira entre eles e as outras pessoas. Quando o cuidado se concentra só em tratar o sentimento de tristeza por si só, essa ‘parede’ continua lá”, explica Christian Kieling, psiquiatra do Hospital Moinhos de Vento e um dos autores do estudo. “Isolamento, solidão e emoções como raiva e frustração aparecem de forma muito consistente nos relatos e precisam ser considerados no cuidado.”
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A análise de centenas de dados e relatos dos 16 países – onde foram desenvolvidos os estudos mapeados – resultou em três grandes temas que ajudam a compreender como os adolescentes dão sentido à experiência da depressão.
- O primeiro envolve a dificuldade de nomear o sofrimento, com uso frequente de metáforas e sensação de estranheza ou desconexão.
- O segundo diz respeito à influência de fatores culturais e contextuais, como conflitos familiares, bullying, pressão escolar, estereótipos de gênero e expectativas sociais.
- Já o terceiro aborda o acesso ao cuidado, destacando barreiras como estigma, dificuldade de apoio familiar e desconfiança em relação aos serviços de saúde mental.
De acordo com Anna Carolina Viduani, psicóloga do Hospital Moinhos de Vento, que liderou o estudo, “a classificação tradicional de transtornos mentais captura apenas uma fração da experiência da depressão na adolescência. É preciso ouvir, observar e incorporar as características relatadas pelos próprios jovens. Hoje eles enfrentam contextos e desafios diferentes, os quais precisam ser considerados”, observa a profissional.
Ao evidenciar o desalinhamento entre diagnóstico formal e experiência vivida, o estudo reforça a importância de abordagens mais sensíveis ao contexto social, cultural e relacional dos adolescentes. Para os autores, ampliar a escuta e reconhecer essas vivências é um passo estratégico para qualificar o cuidado em saúde mental e responder de forma mais efetiva às necessidades dessa população.