A escritora e pesquisadora Célia Gascho Cassuli lançou, na noite desta sexta-feira (17), na Sociedade Cultura Artística (Scar), em Jaraguá do Sul, o livro “Nossa Gente”, publicado pelo Instituto Cassuli. A obra reúne reflexões sobre a formação histórica do município e defende a tese de que o desenvolvimento da cidade foi impulsionado, principalmente, pela iniciativa da própria comunidade.
Durante a apresentação, Célia explicou que a ideia do livro surgiu após anos observando o comportamento da população jaraguaense. Segundo ela, Jaraguá do Sul se diferencia por não esperar que as soluções venham do poder público, mas por mobilizar a sociedade para transformar a realidade. “Como Jaraguá é uma cidade diferente. E por que ela é diferente? Porque o povo é diferente. Aqui as coisas acontecem. A sociedade faz acontecer”, afirmou.
A autora contou que, a partir dessa percepção, iniciou uma pesquisa para compreender a origem desse comportamento coletivo. Conforme explicou, chegou à conclusão de que a cidade desenvolveu uma característica que ela define como uma “veia anarquista”. Na avaliação de Célia, o termo não está relacionado à desordem, mas sim a uma filosofia baseada na autonomia das pessoas e na capacidade da sociedade de resolver seus próprios desafios.
Segundo ela, esse espírito teria surgido desde os primeiros anos da colonização, quando os moradores precisaram construir praticamente toda a infraestrutura da região.
“Eles vieram e não tinham nada. Precisaram abrir picadas, construir estradas, levantar suas casas e garantir a própria sobrevivência. Isso fez com que desenvolvessem cada vez mais essa autonomia”, explicou.
Mobilização
Ao longo da apresentação, Célia citou diversos exemplos que, segundo ela, demonstram essa tradição de mobilização comunitária em Jaraguá do Sul. Entre eles, destacou o início da construção do Hospital São José, em 1925, que, conforme relatou, nasceu da iniciativa dos antigos choferes de praça e da própria comunidade. Também mencionou a construção de igrejas, clubes sociais e outras instituições, todas organizadas pela sociedade civil, sem coordenação direta do poder público.
A autora também lembrou da criação da Sociedade Cultura Artística (Scar). Conforme relatou, a instituição teve origem em 1958, a partir da iniciativa da pianista Adélia Fischer, de seu marido e de seus filhos, quando foi formada uma orquestra que, anos depois, daria origem à entidade cultural.
Segundo Célia, esse mesmo espírito comunitário também está presente na criação dos Bombeiros Voluntários de Jaraguá do Sul. Ela recordou que, após um grande incêndio em um estabelecimento comercial da cidade, a comunidade percebeu a necessidade de criar um serviço próprio de combate ao fogo, já que o caminhão dos bombeiros de Joinville levava horas para chegar ao município
Na avaliação da pesquisadora, outras entidades também refletem essa característica, como a APAE, a AMA, a equoterapia desenvolvida pela AJAE e diversas organizações voltadas ao atendimento de crianças, jovens e pessoas com deficiência. Outro ponto abordado pela autora foi a organização das creches e dos hospitais da cidade. Segundo ela, muitas dessas instituições são administradas por entidades da sociedade civil, mesmo quando recebem apoio do poder público.
Participação política
Durante a apresentação, Célia também dedicou parte da explanação à participação política de Jaraguá do Sul na década de 1930. Ela afirmou que, naquele período, moradores da cidade buscavam maior representação política em um cenário dominado, segundo sua análise, por grupos tradicionais de Santa Catarina. Conforme explicou, esse contexto contribuiu para o crescimento do integralismo no município.
Segundo a autora, Jaraguá do Sul foi, proporcionalmente, o município com maior número de integralistas do Estado na época, enquanto Santa Catarina concentrava a maior presença do movimento no país. Ela ressaltou que essa análise integra a pesquisa histórica desenvolvida no livro e faz parte da interpretação apresentada na obra.
Ao encerrar a apresentação, Célia voltou a destacar que, em sua avaliação, a principal marca de Jaraguá do Sul continua sendo a capacidade da população de se organizar e criar soluções para os desafios da comunidade. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Eu acho muito apropriada essa frase para Jaraguá. Nós nunca esperamos. É isso que faz a cidade diferente”, afirmou.
Após a apresentação, a autora permaneceu na Scar para conversar com os leitores e participar da sessão de lançamento e autógrafos do livro “Nossa Gente”, publicado pelo Instituto Cassuli. O prefácio do livro foi feito pelo escritor Nelson Pereira, que ressalta a contribuição da autora para a preservação da memória de Jaraguá do Sul.

Foto: Fabio Junkes