À frente de seu tempo: conheça Anneliese Ehlert Erzinger, a 1ª mulher a ocupar o cargo de Gerente na WEG Tintas

Hoje aposentada, Anneliese vive em Balneário Camboriú, ao lado do esposo | Foto: Arquivo pessoal

Por: Elisângela Pezzutti

05/12/2023 - 06:12 - Atualizada em: 08/12/2023 - 10:54

Diferente do que acontece com boa parte das mulheres que entram no mercado de trabalho e precisam se desdobrar para dar conta de duplas ou até triplas jornadas, ao ter que cuidar da casa e dos filhos, ainda nos anos 1970 Anneliese Ehlert Erzinger quebrou o padrão que definia que a mulher nasceu para ser mãe e esposa antes de qualquer coisa. Atualmente aposentada e residindo em Balneário Camboriú, ela é dona de um extenso currículo. Venceu inúmeros desafios e construiu uma brilhante carreira profissional como Engenheira Química, tendo sido a primeira mulher Gerente da WEG Química, hoje WEG Tintas.

Quase 50 anos atrás, Anneliese escolheu ser Engenheira Química, uma profissão que ainda hoje tem maioria masculina, e formou-se em 1979, pela Universidade Regional de Blumenau (Furb). Devido ao alto grau de dificuldade do curso, a turma que iniciou em 1975 com 40 alunos, teve apenas 10 formandos.

Ela conta que seu pai, Herbert Augusto Guilherme Ehlert, trabalhava na Porcelanas Schmidt, em Pomerode, como Gerente de Vendas do mercado nacional e exportação. Falava e escrevia fluentemente o alemão. Quando era criança, ela e sua irmã iam até a fábrica e o pai lhes mostrava todo o processo de feitura das peças. “Eu me interessei por aquelas máquinas e já gostava do processo que envolvia a fabricação da porcelana”, diz.

No entanto, quando chegou a hora de fazer um curso superior, o pai sugeriu que ela cursasse Belas Artes, pois achava que Engenharia não era “faculdade para mulher”. Porém, a jovem já estava decidida e prestou vestibular para Engenharia Química na Furb, mesmo sem fazer qualquer tipo de curso preparatório e sem contar para a família. Em um dia de trabalho na Porcelanas Schmidt, alguém mostrou o jornal ao pai de Anneliese com o nome dela entre os aprovados.

Quebra de paradigma: a vida profissional como prioridade

Ainda adolescente, por volta dos 18 anos, Anneliese decidiu que não teria filhos. Em um baile de fim de ano, no Clube Pomerode, conheceu um rapaz de Curitiba. “Ele era muito inteligente, estudava Medicina. A gente se encontrava nos bailes, dançávamos, começamos a trocar cartas. Mas ele tinha planos de nós dois nos casarmos, termos filhos e eu, no máximo, seria a secretária dele. Não me enquadrava nesse papel”, conta. Além disso, o futuro-médico também queria “mandar” em Anneliese, que não poderia usar minissaia, esmalte vermelho nas unhas… “Eram muitos ‘não pode’, e eu achei melhor terminar logo porque não ia dar certo”, diz.

A partir de então, o seu foco passou a ser a vida profissional e a dedicação exclusiva ao trabalho lhe trouxe o merecido reconhecimento. “Sou uma pessoa muito feliz e realizada”, afirma.

Ao falar sobre sua longa carreira na WEG, Anneliese diz que só tem que agradecer à empresa por ter lhe dado a chance de desenvolver seu potencial após a formação como Engenheira Química | Foto: Arquivo pessoal

O início de sua atuação como Engenheira Química

Ainda durante a faculdade, Anneliese fez estágio na empresa Duas Rodas, em Jaraguá do Sul, onde permaneceu por mais algum tempo após formada. Depois, um currículo seu foi parar nas mãos de Vicente Donini, que na época atuava na Seção de Vendas da WEG. Donini informou Anneliese que no ano seguinte abriria uma vaga no laboratório físico-químico da empresa. Ela então optou por aguardar a abertura desta vaga e enquanto isso atuou como professora em dois colégios de Pomerode.

Em janeiro de 1981, iniciou a sua carreira na WEG, empresa em que trabalharia por mais de três décadas e onde o universo era, em sua maioria, composto por homens. “Mas não tive dificuldade nenhuma quanto a isso, entrei no laboratório e queria conhecer as coisas, já comecei a amar tudo que vi”, relembra.

Ela já havia feito um estágio de quatro meses na empresa. Ainda não existia o programa trainee na época e a WEG tinha aproximadamente dois mil funcionários. “Então, conheci todo mundo lá dentro, me dei superbem, um ajudava o outro, se eu tinha uma dúvida, faziam questão de me explicar”, recorda. Por conta da profissão, fez muitas viagens pelo Brasil e para fora do país e afirma que nunca se sentiu desrespeitada pelos homens.

Viagem à Alemanha, quando estagiou na Bayer | Arquivo pessoal

 

Café de despedida dos executivos da Bayer | Arquivo pessoal

A certa altura, a WEG comprou uma fábrica de tintas em Guaramirim e Anneliese solicitou sua transferência para a unidade, que inicialmente se chamava WEG Química e, em 2010, passou a se chamar WEG Tintas. “Como sou Química, falei com o meu Diretor, que era o Moacyr Sens, que gostaria de trabalhar em uma empresa de Química mesmo, então entrei para um estágio da Bayer, e fiquei seis meses em Leverkusen, na Alemanha, estudando e me preparando, com bolsa de estudo obtida por concurso em São Paulo, pela Fundação KRUPP e Carl Duisberg Gesellschaft, e patrocinada pela WEG Motores”. Nesse período, Anneliese absorveu conhecimentos sobre a tecnologia de formulação de resinas e vernizes e sobre o processo de fabricação dos vernizes.

Registro de quando fez seu estágio na Nippon, no Japão | Foto: Arquivo pessoal

 

Lembrança de Tókio, onde esteve em 2006 | Arquivo pessoal

 

Na WEG Química, ela precisou aprender muitas coisas na prática, como por exemplo, fabricar resinas e vernizes em escala laboratorial. “Mas eu senti uma grande afinidade com tintas, foi algo impressionante. Eu não vim de uma fábrica de tintas, mas eu não estava aquém dos profissionais que estavam lá. E fui investindo naquilo, conhecendo, trabalhando, até que, para minha surpresa, o Diretor na época, Walter Janssen Neto, me nomeou gerente do Departamento de Controle de Qualidade”, conta. Ainda não havia ninguém que falasse inglês na WEG Química e Anneliese falava o inglês e o alemão, o que a destacava ainda mais.

Cerca de três anos mais tarde, passou a atuar como Gerente do Departamento de Tinta em Pó, quando o objetivo da empresa era ser a melhor e maior fabricante de tinta em pó no Brasil, mercado liderado na época pela multinacional holandesa Akzo Nobel.

Algum tempo depois, ela assumiu o cargo de Consultora de Pesquisa e Desenvolvimento de Novas Tecnologias. Entre outras atribuições, Anneliese era responsável por encaminhar as tecnologias para serem patenteadas e foi a inventora da tinta em pó Nobac (antimicrobiana). “Eu formulei a tinta e fiz a patente. Depois, esta tecnologia se estendeu para a Tinta Líquida também. Foi um grande sucesso!”, orgulha-se.

Anneliese e sua equipe durante treinamento, em janeiro de 2006 | Foto: Arquivo pessoal

Após 31 anos de atuação na WEG, já aposentada, chegou a atuar como corretora de imóveis em Balneário Camboriú, pelo fato de que, como ela mesma afirma “não consegue ficar parada”. Sua carreira como Engenheira Química teria tido uma sobrevida após a aposentadoria, já que, por meio do industrial Wandér Weege, surgiu a oportunidade de trabalhar na unidade da Sherwin-Williams, em São Paulo. Porém, um incidente – uma fratura no pé direito – colocou fim aos seus planos.

Fazendo uma retrospectiva de sua longa carreira na WEG, diz que só tem que agradecer à empresa por ter lhe dado a chance de desenvolver seu potencial após a formação como Engenheira Química.

Vida a dois

Vinte e seis anos atrás, quando já era uma mulher madura e com a carreira profissional consolidada, Anneliese casou-se com o Administrador de Empresas, Gerasimo Erzinger, com quem possui uma relação de muito amor e companheirismo. “Agradeço ao meu marido pela compreensão e influência positiva”, faz questão de salientar.

Ao lado do esposo Gerasimo, com que está casada há 26 anos | Foto: Arquivo pessoal

 

Foto de seu casamento, em 1997 | Arquivo pessoal

 

Lembrança de um churrasco com colegas engenheiros na casa de seu pai, em Pomerode, na época em que Anneliese foi admitida na WEG Química | Arquivo pessoal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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