Este colunista aqui é considerado um “fora da casinha”, por razões diversas, entre as quais, gostar de viajar solitariamente pelo Brasil e mundo, em ciclo aventuras e maratonas.
Pois, então!!! Há quem viaje para descansar. Há quem viaje para conhecer lugares. Há quem viaje para fotografar, cumprir roteiros, visitar monumentos, experimentar restaurantes indicados e voltar para casa com a sensação de que “viu tudo”. E há aqueles que viajam por uma razão um pouco diferente: querem, antes de tudo, sair da rotina.
Para os “sazonais” fugitivos do “sempre o mesmo”, viajar não significa apenas deslocar-se de uma cidade para outra. Significa abandonar, ainda que temporariamente, os horários rígidos, os compromissos previsíveis, os caminhos conhecidos e aquela confortável sensação de saber exatamente o que acontecerá nas próximas horas.
Por isso, há preferência – da parte de alguns – por viagens de aventura – experiências estas mais espontâneas e com roteiros não engessados – em lugar das tradicionais excursões, onde cada minuto parece previamente determinado: hora de acordar, hora de tomar café, hora de entrar no ônibus, horário da visita, tempo para fotografar, almoço previamente escolhido, retorno ao hotel, jantar programado e, no dia seguinte, tudo novamente.
Mas, cuidado (!!!), nada integralmente contra as excursões organizadas. Elas têm o seu valor, especialmente para quem prefere segurança, praticidade, conforto e previsibilidade, pois um bom guia pode enriquecer enormemente uma viagem, apresentando a história de um lugar, explicando os seus costumes e conduzindo o visitante por caminhos que, talvez, ele jamais encontrasse sozinho.
Contudo, o problema começa quando a programação deixa de servir ao viajante, passando a aprisioná-lo.
Afinal, “parece sem graça” viajar milhares de quilômetros, para continuar vivendo sob a mesma lógica de horários, obrigações e previsibilidade que se encontra em casa. Isto porque, viajar deve representar – disruptivamente falando – de alguma forma e medida, como que uma ruptura, uma pausa, uma provocação, para, realmente, se relaxar e renovar, enfim, uma oportunidade de se experimentar aquilo que não cabe na agenda cotidiana.
OK, a rotina é necessária, pois organiza a vida, dá estabilidade, permite trabalhar, produzir, cuidar da família, administrar compromissos e perseguir objetivos. Mas, nunca pode tornar-se excessivamente rígida, a ponto de “enclausular”. Afinal, acorda-se quase sempre no mesmo horário, percorre-se as mesmas ruas, trabalha-se nos mesmos ambientes, encontra-se pessoas conhecidas, frequenta-se os mesmos restaurantes, faz-se compras nos mesmos lugares e volta-se para casa pelo mesmo caminho. No fim do dia, senta-se diante das mesmas telas, dorme-se e, no dia seguinte, repete-se tudo novamente. Haja!!!
Essa repetição proporciona segurança, mas também pode produzir uma espécie de anestesia, passando-se a viver no piloto automático. E é justamente aí que uma viagem de aventura pode exercer um papel extraordinário, pois não se sabe exatamente o que se encontrará depois da “próxima curva” e se é obrigado a prestar mais atenção, ou seja, se estar mais presente em locais e momentos bem diferentes do dia a dia.
Por isso, parece não valer a pena abrir mão destas chamadas – pelos “full rotineiros” – de idiossincrasias, popularmente, “loucuras fora da casinha”. Algo, até, muito justificável para os que preferem viagens com perrengues, descobertas e histórias para contar, em lugar de seguir um grupo com crachás, bandeirinhas e horário para tirar foto, tudo pouco a ver com surpresas inesquecíveis para a vida.
Até à próxima aventura… “sem lenço, nem documento”!!!
*”Sem lenço, nem documento”, parte da famosa canção “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, de 1967, do movimento “Tropicália do Brasil”.