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Um país que trabalha… e outro que descansa

Por: Antídio Aleixo Lunelli

27/06/2026 - 06:06

O Brasil é, cada vez mais, um país de contrastes — e de contradições difíceis de explicar. Enquanto milhões de brasileiros acordam cedo, enfrentam trânsito, trabalham duro e fazem malabarismos para fechar as contas no fim do mês, uma nova regulamentação do Conselho Nacional de Justiça escancara o abismo entre quem sustenta o sistema e quem se beneficia dele.

A nova regra permite que magistrados dividam seus 60 dias de férias em 12 vezes ao longo do ano. Somados aos fins de semana antes e depois, cada período pode virar nove dias seguidos longe do trabalho, somando quase 110 dias de férias ao ano.

No papel, o total não muda. Mas, na prática, isso cria uma dinâmica que privilegia mais uma vez quem já tem privilégios.
É aqui que o contraste aparece. Enquanto milhões de brasileiros acordam cedo, enfrentam trânsito, trabalham duro e fazem malabarismos para fechar as contas no fim do mês, o próprio sistema público passa a operar com regras cada vez mais distantes dessa realidade.

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E é isso que incomoda.

Não, isso não é exagero retórico. É a consequência direta de uma regra que é absolutamente desconectada da vida real. E é justamente esse o ponto central do problema. O Brasil não sofre apenas com desigualdade de renda. Sofre com desigualdade de privilégios.
De um lado, servidores do topo da estrutura pública com remunerações que, somadas a auxílios, benefícios e penduricalhos, podem ultrapassar R$ 170 mil mensais. Do outro, professores — responsáveis por formar o futuro do país — recebendo, em média, cerca de R$ 5 mil.

De um lado, estabilidade, garantias, benefícios acumulados ao longo do tempo. Do outro, o trabalhador comum enfrentando inflação, juros altos, carga tributária sufocante e um custo de vida cada vez mais pesado.

É uma conta que não fecha. E mais do que não fechar, ela revolta. Porque não se trata apenas de números. Trata-se de justiça. De senso de realidade. De compromisso com o futuro do país.

Quando uma pequena parcela do serviço público passa a operar sob regras tão distantes da média da população, cria-se um efeito perigoso: a perda de legitimidade. O cidadão deixa de enxergar a estrutura pública como instrumento de equilíbrio e passa a vê-la como um sistema que protege a si mesmo.

E isso corrói a confiança — um dos pilares de qualquer democracia saudável.
É importante dizer: o Brasil precisa de um Judiciário forte, independente e valorizado. Ninguém discute isso. Mas valorização não pode ser sinônimo de distanciamento da realidade. Muito menos de privilégios que se acumulam sem qualquer conexão com o esforço da sociedade que paga a conta. O que está em jogo aqui não é um ataque a instituições. É uma reflexão necessária sobre limites.

Até quando o contribuinte brasileiro vai aceitar sustentar um modelo que concentra benefícios no topo e distribui sacrifícios na base? Até quando vamos tratar como normal aquilo que, na prática, é um privilégio incompatível com a realidade da maioria? É mesmo revoltante.

O Brasil precisa de coragem para enfrentar esse debate.
Coragem para rever distorções históricas.
Coragem para modernizar estruturas.

Coragem para dizer o óbvio: não existe justiça verdadeira quando o sistema que deveria equilibrar a sociedade se distancia dela.
E essa mudança não virá por inércia. Ela exige posicionamento. Exige liderança. Exige compromisso com quem realmente sustenta este país: o cidadão que trabalha, produz, empreende e paga impostos.

Se quisermos um futuro diferente, precisamos começar a corrigir essas distorções agora. Antes que o abismo entre o Brasil real e o Brasil dos privilégios se torne definitivo.

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Antídio Aleixo Lunelli

Antídio Aleixo Lunelli é deputado estadual pelo MDB. Fundador do grupo Lunelli, foi prefeito de Jaraguá do Sul.