Traição virtual

FOTO: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

31/10/2023 - 09:10 - Atualizada em: 31/10/2023 - 16:57

 

“♫ Ela adora me fazer de otário/ Para entre amigas ter o que falar/ É a onda da paixão paranoica/ Praticando sexo como jogo de azar” (Rádio Blá, Lobão)

Tudo bem, já sei que o leitor vai dizer que não existe traição virtual. Que traição é traição, e pronto! Que a única coisa virtual nessa história é o meio, ou seja, a internet, o aplicativo, o e-mail, ou seja lá por onde se dá.

Várias dúvidas vêm com essa história de, perdoem-me novamente os leitores, traição virtual (ou traição online). E a principal delas é se traição online pode ser considerada traição para efeitos práticos e legais.

Bom, adultério deixou de ser crime já há algum tempo, e trair, salvo algum acerto pré-nupcial, também não vai interferir na divisão do patrimônio. E dificilmente na guarda dos filhos também. Isso não quer dizer, nem de longe, que não vá dar dor de cabeça. Mas é fato que há pessoas que relativizam esse comportamento, não sendo raro encontrar mulheres que toleram as escapadelas – ou amantes – de seus maridos por conveniência familiar, social ou financeira, ou homens se gabando de suas aventuras. O inverso é raro, mas tem acontecido com cada vez mais frequência.

A tecnologia dedo-duro.

Há vários casos famosos de traições descobertas acidentalmente por causa da tecnologia. Um dos mais icônicos é aquele do marido que soube que sua esposa o traiu ao ver uma foto dela com outro, digamos, bem carinhosa, no Google Street View ao procurar um trajeto diferente para o trabalho. O casal estava num banco ao longo do caminho, e a imagem já tinha alguns anos. O episódio foi no Peru.

Outro caso inusitado que viralizou foi o da jornalista americana que descobriu a traição do namorado por um aplicativo de monitoramento de exercícios compartilhado com ele. A moça percebeu que os batimentos cardíacos do rapaz estavam muito alterados para aquela hora da madrugada. E, mesmo isto tendo acontecido em 2019, há diversos relatos parecidos até hoje. O pessoal nem para tirar o relógio do pulso.

E agora com IA.

Todo mundo um pouco ligado em tecnologia já percebeu que a inteligência artificial veio para ficar e, muito rapidamente, transformou radicalmente a vida das pessoas nos últimos anos. Direta e indiretamente.

Com aplicativos cada vez mais acessíveis, já estamos vendo vídeos e áudios perfeitos ou praticamente perfeitos de pessoas que não fizeram ou falaram o que está ali. É assustador, mas é uma realidade com a qual temos que nos acostumar cada vez mais.

Isso lembra o caso da influenciadora digital que disse que conseguiu descobrir a traição do namorado se passando por ele, em áudio, com um amigo dele, que abriu o jogo da noitada anterior. Se ela realmente conseguiu, não sei dizer; mas que hoje é possível, é.

E se for só online?

Voltando à pergunta do início: e se for só online, continua sendo traição? Assistir pornografia ou camgirls, patrocinar sugar baby, trocar mensagens por aplicativo ou redes sociais, criar perfil no Tinder e afins, participar de salas de bate-papo, picantes ou não são algumas variáveis. São interpretados ou assimilados de maneiras diferentes, dependendo do pacto do casal, do seu patamar de confiança ou do nível de comprometimento na relação virtual.

Mas é fato que cada vez mais o judiciário tem enfrentado questões que se originaram em traições online. E os pedidos não param apenas no fim do casamento ou da união estável. Tem-se visto muito, nesta esteira, pedidos de indenização por danos morais por conta das puladas de cerca (virtuais ou não), que, óbvio, dependerá das circunstâncias e do grau de exposição ou humilhação da vítima em decorrência da infidelidade.

E olha que nem falamos daquele cara atrapalhado com namorada ciumenta que dá uma curtida sem querer no perfil de alguma mulher bonitona? Qual risco ele corre?