Recentemente regressei de uma viagem ao Pernambuco. No Recife, a capital, uma metrópole cercada por rios, mangues e mar, na construção de um prédio próximo onde estava hospedado, veio à cabeça imagens, histórias e lendas da primeira vez que pisei no Estado, passados uns 15 anos. Naquela oportunidade estive em Amaraji, uma cidade da zona canavieira pernambucana. Não distante do litoral. Existia lá um subúrbio, formado por quatro ruas de terra, cheio de casas tão minúsculas, que parecem representações de um mundo compactado. Casas de portas de 1,60 metro – quando a medida universal é de 2,10 metros. No centro da cidade, velhinhos em miniatura se aboletam facilmente à sombra de uma árvore da praça. Um deles, certamente com menos de 1,50 metro, fica longos minutos estudando o balcão de um bar, até tomar coragem para pedir um café. Aproxima-se do copo devagar, controlando a tremedeira, e despeja ali todo o açúcar a que tem direito – pois já é quase hora do almoço. Café ralo e bem doce: geralmente, esta é a primeira refeição dos que saem de casa de madrugada para trabalhar. Estão habituados à rotina desde meninos. Caminhavam uma hora até o canavial, facão em punho, para uma jornada que é remunerada de acordo com o peso da cana que conseguem cortar. Nessa região de Amaraji eles podem ser encontrados em qualquer fazenda. São conhecidos como homens-gabiru em alusão aos ratos que vivem nos depósitos de lixo das metrópoles nordestinas. Mas a comparação, além de pejorativa, é incorreta: os ratos dos lixões são assustadoramente grandes, enquanto eles são antes de tudo homens miúdos, que não passam de 1,50 metro. Poderiam ser chamados de pigmeus brasileiros – se não tivessem uma diferença importante em relação a esses africanos de baixa estatura. A diferença é que não são pequenos por herança genética, mas por causa da fome. É uma fome ancestral, transmitida de geração a geração, e que os achatou na mesma medida em que os tornou menos exigentes para sobreviver. O corpo dos gabirus, de estranha mutação, às vezes, mostra braços e pernas atrofiados, a cabeça de tão grande destoa de todo o resto. A expectativa de vida dos nanicos é tão curta quanto a sua altura: 50 anos, em média. Na construção daquele prédio boa parte dos trabalhadores eram gabirus. Troquei algumas palavras com um deles. Era um nanico de 47 anos de idade que não tinha mais que 1,40 metro. Homem hospitaleiro e generoso de frases  cortadas e confusas, depois de ouvir-me que passei por suas terras, contemplou-me com um “fé em Padinho Ciço, que ele lhe guie” – se referindo ao Padre Cícero (o padroeiro popular e contestado do Nordeste), dividindo a única coisa que realmente os gabirus de sua terra possuem de sobra. casa_de_taipa2011