Se ainda há vergonha e consciência ética no Brasil, as nossas instituições não podem mais permitir que o ministro Dias Toffoli continue à frente das investigações envolvendo o Banco Master. Aceitar que Toffoli siga atropelando a ordem institucional, sem qualquer constrangimento ou reação efetiva, é abdicar de vez de qualquer resquício de seriedade que ainda possa existir. E isso porque, ao já extenso rol de abusos cometidos pelo Supremo nos últimos anos, o episódio do Banco Master acrescenta contornos ainda mais graves, marcados por desfaçatez, suspeitas de corrupção generalizada e conflitos de interesse evidentes.
Os fatos trazidos à tona pela imprensa – e que se acumulam de forma assustadora – são mais do que suficientes para embasar a abertura imediata de um processo de impeachment contra o ministro. Não se trata de opinião política ou divergência ideológica, mas de respeito à lei, à ética pública e ao funcionamento mínimo das instituições.
Desde o início, a atuação de Dias Toffoli no caso levanta questionamentos profundos. Pouco antes de assumir a relatoria das investigações, o ministro compartilhou uma viagem em jatinho particular com o advogado de um dos investigados, sócio de Daniel Vorcaro, rumo ao Peru, onde assistiram juntos à final da Copa Libertadores. Em qualquer país minimamente comprometido com padrões republicanos, esse fato isolado já seria suficiente para afastar o magistrado do processo.
O que veio depois apenas agravou a situação. Toffoli determinou uma acareação sem propósito jurídico claro e com viés evidente, envolvendo inclusive um diretor do Banco Central – atitude inédita e questionável. Em seguida, negou à Polícia Federal acesso às provas apreendidas, que deveriam ser imediatamente encaminhadas ao STF, lacradas, conforme o procedimento legal.
Não bastasse isso, o ministro ainda restringiu o acesso aos celulares e computadores apreendidos a apenas quatro peritos da Polícia Federal, escolhidos por ele próprio. Ao impor esse filtro, Toffoli sinalizou de forma inequívoca a intenção de interferir no rumo da investigação, comprometendo sua independência e credibilidade.
Paralelamente a esses atos, a imprensa revelou uma teia de relações preocupantes envolvendo empresas de irmãos e de um primo de Dias Toffoli com o cunhado de Vorcaro e um fundo de investimentos ligado à estrutura do Banco Master. No centro dessas relações está o resort Tayayá, empreendimento de luxo localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná.
Oficialmente, o ministro nunca figurou como sócio do resort, atribuindo a participação a dois de seus irmãos. Essa versão, no entanto, foi contestada publicamente pela própria cunhada de Toffoli, que negou qualquer vínculo do marido, José Eugênio Dias Toffoli, com o empreendimento, conforme revelou reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. Apesar disso, a associação do ministro com o resort é pública, antiga e notória.
Em 2017, Dias Toffoli recebeu o título de cidadão honorário de Ribeirão Claro justamente por sua atuação na viabilização do resort. Reportagem do portal Metrópoles revelou que, desde 2022, o ministro teria frequentado o local ao menos 168 vezes – o equivalente a passar ali um de cada sete dias –, sendo tratado por funcionários como “dono” do empreendimento, que inclusive abriga uma espécie de cassino.
O caso Banco Master não é um episódio isolado. Ele se soma a uma longa lista de decisões monocráticas, abuso de poder, inquéritos sem objeto definido, violações ao devido processo legal, censura prévia e ativismo judicial que vêm corroendo a credibilidade do Supremo Tribunal Federal. O STF, que deveria ser o guardião da Constituição, passou a atuar como protagonista político, frequentemente sem freios, contrapesos ou qualquer mecanismo efetivo de responsabilização.
Diante desse quadro, iniciar um processo de impeachment contra Dias Toffoli – e de outros ministros – é urgente. O Senado Federal, a quem cabe essa atribuição constitucional, não pode se acovardar. Precisamos dar um basta.
O caso Dias Toffoli e o escândalo do Banco Master, além dos abusos do ministro Alexandre de Moraes, escancaram a necessidade de uma reforma profunda, capaz de devolver ao STF a sobriedade, a imparcialidade e o respeito que uma Corte Constitucional deve inspirar. Continuar fingindo normalidade diante de tamanhos abusos é condenar o Brasil à deterioração definitiva de suas instituições.