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Romeu Zema decidiu atravessar o Rubicão político

Por: Claudio Prisco Paraíso

17/06/2026 - 06:06

Empresário bem-sucedido e até então um ilustre desconhecido da política nacional, Romeu Zema surgiu como um fenômeno eleitoral em 2018. Filiado ao Novo, surpreendeu o establishment político mineiro, chegou ao segundo turno e venceu com folga a disputa pelo comando do segundo maior estado brasileiro.

Fez um governo considerado eficiente, consolidou imagem de gestor, reelegeu-se com tranquilidade e, naturalmente, passou a trabalhar a hipótese de um voo mais alto: a Presidência da República.

A partir daí, aproximou-se de Jair Bolsonaro. Apoiou o então presidente na campanha de reeleição de 2022 e manteve convivência política harmoniosa com o bolsonarismo, com o PL e com o próprio ex-presidente.

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Mesmo após a condenação e a prisão de Bolsonaro — consideradas injustas por seus apoiadores e motivadas por perseguição política —, Zema permaneceu fiel ao campo conservador. Mais do que isso: estreitou relações com Flávio Bolsonaro, justamente no momento em que o senador começou a ser tratado internamente como herdeiro político do pai e possível candidato presidencial.

Vice

O ambiente entre ambos era tão positivo que, nos bastidores de Brasília e do eixo Sul-Sudeste, já se especulava abertamente uma composição entre Flávio e Zema. O mineiro aparecia como nome natural para vice-presidente. Não por acaso.

Minas decide

A história eleitoral brasileira demonstra, de maneira cristalina, que vencer Minas Gerais é praticamente condição obrigatória para conquistar o Palácio do Planalto. Desde 1989, nenhum presidente eleito ignorou essa equação política.

Só que o cenário mudou abruptamente.

A implosão

A revelação dos contatos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma ruptura política imediata.

Até então aliado fiel, Romeu Zema deu um verdadeiro cavalo de pau estratégico. Passou a atacar publicamente Flávio Bolsonaro. Primeiro uma manifestação. Depois outra. E, no último fim de semana, uma terceira investida.

Equipe

Detalhe importante: Zema não foi influenciado por parlamentares mineiros, nem por dirigentes nacionais do Novo, tampouco por deputados ou senadores correligionários.

A decisão foi pessoal e estimulada diretamente por sua equipe de comunicação e marketing político.

Apostando as fichas

O diagnóstico feito pelo entorno do governador é simples: o desgaste provocado pelas revelações envolvendo Flávio Bolsonaro abriu espaço para que Zema tentasse ocupar sozinho o campo conservador liberal, apresentando-se como alternativa viável para enfrentar Lula da Silva em 2026 e chegar ao segundo turno.

Partido em chamas

O problema é que a movimentação de Zema começou a produzir efeitos colaterais pesados dentro do próprio Novo.

A alta cúpula nacional da legenda realizou reuniões com o governador e pediu moderação. O argumento interno é evidente: o adversário comum da direita não está dentro da trincheira conservadora, mas na esquerda, representada por Lula e pelo PT.

Teimosia

Zema, entretanto, não demonstra disposição para recuar.

E a crise já desembarcou em Santa Catarina. Na última visita ao estado, o governador mineiro enfrentou um constrangimento político explícito. Foi praticamente ignorado por Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville e hoje pré-candidato a vice de Jorginho Mello, ambos alinhados politicamente ao projeto de Flávio Bolsonaro.

Regional

Mas a insatisfação não se limita aos catarinenses.

No Paraná, Deltan Dallagnol — ex-procurador federal, candidato ao Senado pelo Novo e aliado do PL — também integra o grupo que vê com preocupação os movimentos de Zema.

No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem, deputado federal e igualmente candidato ao Senado, mantém relação política estreita com os liberais e acompanha o desconforto crescente.

Clima ruim

O que está acontecendo é algo muito mais profundo do que uma divergência eleitoral.

Romeu Zema começou a desorganizar as composições estaduais do Novo, especialmente nos três estados do Sul, onde a legenda construiu alianças estratégicas com o PL e com o bolsonarismo.

O ápice da crise ocorreu nesta segunda-feira.

Fora dessa

O diretório estadual do Novo em Santa Catarina divulgou nota praticamente desconvidando Romeu Zema para o encontro estadual marcado para 4 de julho.

Mais do que isso: o partido deixou claro que, se o governador não se enquadrar numa dinâmica de convivência política minimamente harmônica com o PL, o Novo catarinense não o respaldará na convenção homologatória nacional e tampouco trabalhará por sua candidatura presidencial.

Troco vem

Traduzindo do politiquês: o Novo de Santa Catarina descolou de Romeu Zema.

E fez isso por uma razão objetiva. Hoje, para o partido em Santa Catarina, a parceria com Jorginho Mello é considerada mais estratégica, mais prioritária e mais importante do que o próprio projeto presidencial do governador mineiro.

No entendimento de lideranças catarinenses, Zema resolveu entrar definitivamente no modo “biruta de aeroporto”.

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