Assim que Porfírio chegou, Elvira foi logo mostrando dois convites de casamentos que havia recebido. Um deles era do amigo das peladas de quarta-feira, Ivanir, sujeito simples, que tinha economizado dinheiro por um bom tempo para realizar o sonho de sua noiva: “Vamos fazer um jantar simples, só para os amigos”. Já o outro convite era chique! Era tão chique que Porfírio e Elvira demoraram alguns minutos para descobrir como se abria aquele convite. Elvira mandou que o marido lavasse as mãos antes de pegar no papel, porque ela não queria que ele sujasse aquele convite tão bonito e ela iria prendê-lo com um imã na geladeira. Era o casamento do filho do chefe de Porfírio. Todo o setor de Porfírio tinha sido convidado, ia ser uma festa e tanto! Elvira estava ansiosa. Dois casamentos! Ela adorava casamentos. - Porfírio, temos que decidir o que daremos de presente. - Vamos ver a lista logo, para comprar o que for mais barato. - Não é assim, Porfírio. Para o Ivanir até podemos dar algo mais simplesinho, mas pro filho do seu chefe tem que ser uma coisa chique! - Não precisa. Ele é rico! Se ele quiser uma coisa melhor, ele pode comprar. - Não, Porfírio. Você não vai querer fazer feio na roda da high society, não é? E a roupa? - Vou com o meu terno de sempre. - No casamento do Ivanir, sim, mas no casamento DO-FILHO-DO-SEU-CHEFE, não! Vamos ter que comprar roupas novas, além de sapatos e vou ter que marcar hora num salão melhor para fazer unha e cabelo. - Não precisa disso tudo. - Claro que precisa! Você não sabe, então? Para uns damos as coisas melhores e para outros qualquer coisa serve. - Meio estranho isso, não acha? - É a natureza, Porfírio. A natureza da sociedade. - A natureza devia ser ajudar mais a pessoa que precisa mais. Não acha? Seria mais justo darmos um cartão de felicidades para o filho do chefe, que eu nem conheço, e dar um bom presente ou dar algum dinheiro para meu amigo Ivanir, que ficará muito grato. - Porfírio, o Ivanir se contentará com qualquer coisinha. -Exatamente, e o filho do chefe nem sentirá nossa falta se faltarmos. - Por isso, um presente melhor. Assim ficaremos bem aos olhos de seu chefe. Está decidido! Um faqueiro bem chique para ele e para o Ivanir damos um envelope com cinquenta pila. - Um faqueiro? Quanto custa isso? - Não sei, Porfírio, mas, se for caro, parcelamos. O que não podemos e ficar sem dar um bom presente. Não dá pra dar qualquer coisa para gente rica, Porfírio, entendeu?