Penas ao léu…

Foto: Arthur Hidden / Freepik

Por: Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

31/10/2023 - 10:10 - Atualizada em: 31/10/2023 - 10:17

Eu peno, tu penas,
ele pena, ela pena.
a duras penas.
penamos.
Presas livres!

Por Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

Era uma vez uma menina…

Tornara-se mulher há pouco. E, em momentos desafiadores, daqueles que ninguém tinha mais nada para falar, sempre escutava das outras mulheres que deveria ouvir sua “voz interior”!

Andava sentindo-se incomodada nos últimos tempos… Uma lhe dava “opinião daqui, outra dali!” Aliás, você já parou para pensar o que é “opinião”?

A mulher sim. Parou e se permitiu pensar a respeito… Opinião é “um” ponto de vista, mas, sem fundamento, se torna palpite. Você concorda?!

Ela sabia que a opinião de outras pessoas poderia interferir na forma como vivia e fazia as suas escolhas… Pois é, e isso sempre foi um problema para ela. Na verdade, o medo de o outro “não gostar”, “não aprovar”, “não se interessar” já lhe paralisara algumas vezes… E, em meio a um barulhão de vozes carregadas de opiniões dos outros, abafou a voz interior e exterior dela. Você já passou por isso também?

Assim, no andar da sua própria caminhada, a mulher optou, durante um tempo, pelo silenciar da sua voz – mas não pelo silêncio significativo eleito com autonomia, e sim pelo silenciar da sua “própria voz” na sua “própria história”.

Mas, certo dia, num início de primavera, a mulher observou, com calma e em sintonia: a natureza, seus ciclos, suas mudanças… E constatou que tudo está interligado, inclusive a forma como a terra se renova. As coisas vivas dentro de um ecossistema interagem umas com as outras e, igualmente, com o ambiente não vivo, para constituir uma unidade ecológica.

Ora, tal processo de renovação é gradual e suave, ora violento e destrutivo. Contudo, os ciclos da natureza encontram, dentro de si, os recursos necessários para regenerarem-se. E, desse modo, ocorreu uma troca constante e contínua entre os elementos naturais – ar, terra, água, fogo – e o elemento humano. Outra observação se deu quanto à metamorfose da lagarta em borboleta, em que nenhuma ajuda alheia poderia acelerar tal processo. Logo, tal processo se deu por meio e através do tempo, dando origem a uma bela e colorida borboleta, que alçou voo, livremente, no imenso céu; nesse mesmo instante, a mulher juntou uma pena que caíra no chão. Guardou-a. Em face de suas vivências e observações, unida à razão e à emoção, decidiu dar ouvidos a sua voz interior!

A princípio, amparou-se no parágrafo 1º, do Artigo 5º da Constituição Federal, ou na lei dos homens, a qual dispõe que a liberdade de expressão é um direito fundamental de todas as pessoas. Depois, nos ditos populares que trazem: “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”, “nem Jesus agradou a todos…!”

Tudo se renovou: interna e externamente.

“O outro” está sempre munido de um guia, disposto a tecer orientações! É guia para mãe, para rotina dos bebês, para adolescentes etc. Entretanto, o guia existe dentro de nós mesmos. E a voz interior está lá: para nos direcionar. Basta virarmos a chave e abrirmos o nosso coração.

Os dias foram passando e a mulher tornou-se fiel a si própria, refletindo a segurança de uma pessoa consciente de suas escolhas, mesmo sabendo que sempre existirá alguém que não gosta do que faz, mas não é por esse motivo que deixará de fazer. Ela, de fato, mudou o seu relacionamento com a vida.

A mulher, contando tudo isso a uma amiga, retirou do bolso uma pena e mostrou-lhe comovida: “_ Presente da natureza!”

Quando a amiga lhe indagou por que guardava a pena, ela sorriu e respondeu:

“_ A pena é inseparável da ave, por essa razão, embora aqui na terra, tem uma ligação com os céus. Só estou escutando minha voz interior e firmando uma conexão comigo”.

Todas as vidas têm um significado peculiar. Encontrar-se na terra e dar vazão aos anseios depende da coragem e do respeito ao trilhar o caminho entre o plano material e espiritual, ouvindo, de fato, quem importa: nossa própria bússola, nosso guia: nosso coração; cuja voz interior orienta, a duras penas, as céleres e dispersas passadas do nosso caminhar neste mundo frenético e barulhento, em que o silêncio é, muitas vezes, ignorado, mas carregado de significado.