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Ouvir é curar

Por: Luiz Carlos Prates

17/08/2026 - 07:08

Conversar com pessoas amigas, confiáveis, é um tipo especial de psicoterapia. Podemos revelar, confessar o que sentimos e ficamos na certeza de que não vamos ser criticados ou condenados. Vira e mexe, vou aos meus arquivos de jornais, vou dar uma volta pelo passado, mas… Do passado encontro muito pouco, o que mais reencontro são coisa do aqui e agora. O mundo gira, gira, o tempo passa, mas os humanos continuam, por maioria, desumanos. Uma estupidez calculada, programada, afinal, não existe essa história do – Ah, eu não sabia… Sabia sim, sabia! Na área médica dos meus arquivos de jornal, reencontrei uma citação do filósofo e médico espanhol cujo pseudônimo era Maimônides, nascido em 1138. Maimônides deixou-nos esta mensagem: – “Uma consulta deve durar uma hora. Durante 10 minutos, ausculte os órgãos do paciente, e, nos 50 minutos restantes, ouça-lhe a alma”. Esse tempo maior da consulta hoje se chama anamnese, uma espécie de garimpo emocional. O médico, durante a anamnese, ouve sobre a vida habitual, passado, presente, inquietações futuras, de tudo um pouco da vida do paciente. Dessa conversa vai resultar o verdadeiro diagnóstico, a causa das doenças humanas. Uma pessoa “asseada” mentalmente vai morrer de velha, vai se esquecer de morrer, porém… Raríssimos têm esse tipo de cabeça. Hoje a consulta se resume a alguns minutos, não existe mais a anamnese, é tudo na base dos diagnósticos eletrônicos, vapt-vupt… Nós não somos automóveis, trens, aviões, os nossos problemas não nascem de uma peça quebrada ou desgastada, nossas doenças nascem na nossa cabeça, sub-repticiamente, sem que nos demos conta. E ainda, dos meus arquivos de jornais, tenho uma mensagem de uma rede de farmácias de Santa Catarina relativa ao dia dos médicos, ano de 2024. A mensagem publicada num dos nossos jornais dizia – “Ser médico é uma missão divina, um verdadeiro sacerdócio. Nossa gratidão por ser um instrumento de Deus para salvar vidas”. Mensagem bonita, mas… Raros entram nessa fila. E é bom não esquecer que todos nós temos o poder de cura, de curar amigos, familiares e até estranhos, tudo pela bondade, pela compreensão, pelos ouvidos dispostos a ouvir e as mãos estendidas para ajudar. O mais é teatro. Temos o poder para construir e destruir pessoas, a começar por nós mesmos…

CUIDADOS

Muita gente, em família ou com amigos, se equivoca ao pensar que a intimidade cotidiana é uma porteira aberta para que possam dizer tudo o que pensam ou querem. E essa aparente liberdade, gerada pelo convívio, costumeiramente acaba levando as pessoas a magoar umas as outras. Ninguém é mais “íntimo” (aparentemente) que um casal, mas essa intimidade vai só até ali, até a sensibilidade ao respeito e a não magoar. Aonde isso, por favor me mande dizer.

PARCEIROS

Um dos nossos equívocos existenciais é sonhar em encontrar alguém igual a nós e com essa pessoa casar. Bah, o casamento não ia durar uma semana. Nada pior do que ter alguém igual a nós ao nosso lado. Não vemos isso porque, fingidamente, não nos queremos ver no espelho da verdade da vida. O melhor dos casamentos é o casamento como os dois lados de uma mesma moeda, cada um do seu jeito e modo, mas… Fechando a conta um com o outro.

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FALTA DIZER

As artimanhas da nossa cabeça nos revelam, queiramos ou não. Toda pessoa que se exibe, que se pretende ser superior, que se diz a maioral, nisto ou naquilo, faz uso artificial, inconsciente, da superioridade, e sabes por quê? Poque ela vive no inferno da inferioridade.

 

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Luiz Carlos Prates

Jornalista e psicólogo, palestrante há mais de 30 anos. Opina sobre assuntos polêmicos.