Desde o restabelecimento das eleições diretas para governador, em 1982, Santa Catarina realizou 12 disputas pelo comando do Estado. Nas primeiras nove, os grupos políticos ligados ao antigo PDS e ao PMDB dividiram as vitórias. Mudavam as siglas, surgiam novas alianças, mas o poder continuava circulando entre forças conhecidas.
Era uma queda de braço entre estruturas robustas, lideranças tradicionais e partidos acostumados a comandar o território catarinense.
Cinco a quatro
Esperidião Amin venceu em 1982 pelo PDS e em 1998 pelo PPB. Vilson Kleinübing ganhou em 1990 pelo PFL. Raimundo Colombo conquistou o governo em 2010 pelo Democratas e se reelegeu em 2014 pelo PSD.
Do outro lado, o PMDB venceu com Pedro Ivo Campos, em 1986, Paulo Afonso Vieira, em 1994, e Luiz Henrique da Silveira, em 2002 e 2006.
Cinco a quatro. Nove eleições dominadas por esses grupos. Uma hegemonia que parecia indestrutível.
Siglas e heranças
É preciso distinguir a trajetória das lideranças da sucessão formal dos partidos. O PDS passou por reorganizações que desembocaram no atual PP. O PFL virou Democratas, que depois se fundiu ao PSL para formar o União Brasil.
O PSD recebeu lideranças desse campo, entre elas Colombo, mas não é simplesmente o Democratas com outra placa na porta. Já o PMDB recuperou o nome MDB. As estruturas mudaram, mas conservaram personagens e extensas redes de influência.
A onda rompeu
Em 2018, o eleitorado virou a mesa. A onda bolsonarista elegeu pelo PSL o então praticamente desconhecido Carlos Moisés. A velha engrenagem perdeu o comando.
Em 2022, veio Jorginho Mello, pelo PL. Agora, a reeleição no primeiro turno. Três eleições consecutivas fora daquela alternância tradicional. O que começou como uma ruptura ganhou consistência e se transformou numa força política avassaladora.
Todos no palanque
MDB, PSD, PP e União Brasil estavam reunidos em torno de João Rodrigues. Havia experiência, estrutura e ex-governadores no mesmo projeto. Não faltava passado naquele palanque.
Faltou convencer o eleitor.
João terminou com 13,35% dos votos válidos: 569.263 votos. Uma derrota pesada para uma aliança que pretendia recuperar o governo. A soma dos antigos donos do poder não produziu uma candidatura à altura da própria ambição.
O contraste brutal
Júlia Zanatta, do PL, foi a deputada federal mais votada de Santa Catarina, com 560.223 votos. Apenas 9.040 a menos que João Rodrigues.
É uma comparação entre disputas diferentes, mas politicamente eloquente. Uma candidatura proporcional praticamente alcançou a votação do candidato ao governo apoiado por aquele conjunto de estruturas tradicionais.
O contraste é brutal. Prestígio acumulado não se converte automaticamente em voto.
Nove contra dezesseis
Na Assembleia, MDB, PP e PSD elegeram, respectivamente, quatro, dois e três deputados. Somados, nove cadeiras. O PL conquistou 16.
Sete a mais que os três reunidos. Mesmo acrescentando os dois estaduais do União Brasil, a conta da aliança de João chega a 11, ainda distante da bancada liberal.
O resultado traduz uma mudança profunda. Os grupos que durante décadas comandaram Santa Catarina agora precisam negociar diante de uma força parlamentar muito maior.
Brasília confirma
Na Câmara Federal, o retrato se repete. MDB, PSD e PP elegeram um deputado cada. Três no total. O PL fez sete.
O MDB, que havia eleito três federais em 2022, ficou com um. O PSD caiu de dois para um. O PP recuperou representação, mas isso não altera a desproporção entre os campos.
Jorginho venceu o governo e ampliou a sustentação parlamentar. Uma vitória que ultrapassa, e muito, os limites do próprio mandato.
E não podemos esquecer os dois senadores eleitos pelo PL. Ao lado de Jorge Seif, eleito em 2022, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro formarão, a partir de 2027, uma bancada catarinense cem por cento liberal no Senado.
O passado não basta
Os partidos tradicionais continuam tendo prefeitos, lideranças e história. Mas história não é procuração permanente para governar.
As urnas deram um recado contundente: o eleitor mudou, a correlação de forças mudou e o centro do poder também. Jorginho e o PL ocupam hoje o espaço que os antigos protagonistas não conseguiram preservar.
Quem continuar vivendo da lembrança dos tempos de glória corre o risco de virar figurante. A política catarinense sofreu uma transformação profunda. E o velho poder está ficando para trás.