O Brasil vive uma inversão perigosa — e cada vez mais evidente. Enquanto o cidadão comum luta para pagar impostos, manter seu negócio de pé e gerar empregos, parte do aparato estatal parece empenhada em outra missão: vigiar, punir e constranger quem produz.
O episódio recente envolvendo o empresário Luciano Hang, o conhecido “Véio da Havan”, é mais um retrato desse desequilíbrio. A notificação feita pelo Ministério Público Federal, a partir de uma denúncia anônima, questionando o uso da bandeira do Brasil em sacolas de compras, não é apenas um caso isolado. É sintoma de algo maior — um sistema que, muitas vezes, parece desconectado das prioridades reais da população.
Vamos aos fatos. A acusação? “Vilipêndio à bandeira nacional”. O motivo? Sacolas estampadas com o símbolo do país, que eventualmente podem parar no lixo. A própria análise jurídica, no entanto, desmontou a tese: não houve crime, nem infração. O caso foi arquivado.
Mas a pergunta permanece — e precisa ser feita: quanto tempo, dinheiro público e energia institucional foram gastos para investigar algo tão evidente? E assim temos outros milhares de casos.
Enquanto isso, o Brasil real enfrenta desafios urgentes: criminalidade crescente, ocupações ilegais, degradação urbana, corrupção, falência ética. Problemas concretos, que impactam diretamente a vida das pessoas. Ainda assim, vemos estruturas robustas do Judiciário e do Ministério Público sendo mobilizadas para apurar denúncias que beiram o absurdo.
Não se trata de atacar instituições — elas são fundamentais para a democracia. Mas é legítimo questionar o uso distorcido dessas estruturas. Quando órgãos pagos pelo contribuinte passam a agir movidos por denúncias frágeis, muitas vezes com viés ideológico, abre-se um precedente perigoso: o da perseguição disfarçada de legalidade.
A legislação sobre símbolos nacionais, criada em 1971, precisa ser interpretada com bom senso. O próprio ordenamento jurídico reconhece o uso da bandeira como expressão de identidade e patriotismo. Transformar isso em infração é distorcer a lei para atender narrativas.
Mais grave ainda é o ambiente que isso cria. Empresários, empreendedores e cidadãos passam a viver sob constante insegurança jurídica. Qual será a próxima denúncia? Qual atitude cotidiana poderá ser reinterpretada como infração?
O Brasil não pode ser um país onde o Estado intimida quem trabalha e relativiza quem desrespeita de verdade. Precisamos de instituições fortes, sim — mas focadas no que realmente importa. Segurança, justiça, combate ao crime, eficiência.
O contribuinte brasileiro não paga impostos para sustentar uma máquina que caça fantasmas. Paga para ter um Estado que funcione.
E isso, definitivamente, está longe de ser o caso.