Encerrada a janela partidária — aquele período de 30 dias que permite a troca de siglas sem risco de perda de mandato — o que se desenha no cenário político nacional e, sobretudo, em Santa Catarina, é menos uma dança de cadeiras e mais uma consolidação de forças.
E, nesse tabuleiro, o campo conservador saiu claramente mais robusto, enquanto a esquerda permaneceu praticamente estática, imune às movimentações que marcaram o período. Uma esquerda que, sob essa leitura, segue desgastada, sem capacidade de reação no curto prazo.
Plano nacional
No plano nacional, o Partido Liberal (PL) retoma protagonismo ao reassumir o comando da Câmara dos Deputados.
A legenda, que havia eleito 99 parlamentares federais e depois sofrido baixas relevantes, recompôs sua musculatura durante a janela. Entre perdas e ganhos, voltou a flertar com os três dígitos.
Pode haver divergências numéricas, mas o fato político é inequívoco: o PL retorna ao centro do poder legislativo como a maior força da Câmara.
Estagnação da esquerda
Do outro lado do espectro, o Partido dos Trabalhadores (PT) praticamente não se moveu. Manteve sua bancada na casa dos 60 deputados federais, sem ganhos expressivos.
O mesmo ocorreu com outras siglas de esquerda, como PSOL e PSB, que atravessaram a janela sem alterar de forma relevante sua representação. Apenas o PDT que sofreu severas perdas.
O cenário é claro: não houve crescimento, tampouco reorganização. A esquerda, neste momento, assiste ao jogo — não o conduz.
Santa Catarina: retrato cristalino
Em Santa Catarina, o quadro é ainda mais evidente.
O PT manteve seus dois deputados federais e quatro estaduais. PDT, PSB e PSOL também permaneceram inalterados, com representações mínimas.
Nenhuma expansão, nenhuma reorganização relevante.
Força de Jorginho
Se há um vencedor inequívoco no estado, ele atende pelo nome de Jorginho Mello.
Governador e presidente estadual do PL, ele emerge da janela não apenas fortalecido, mas com uma base política ampliada e mais coesa.
Bancada ampliada
O PL saiu de 11 deputados estaduais eleitos para 14 ao fim da janela — um crescimento significativo dentro de um Parlamento de 40 cadeiras.
Mais do que números, isso representa capacidade de articulação e controle de agenda.
Aliados estratégicos
O entorno do governador também cresceu.
O Republicanos passou de um para dois deputados estaduais e ganha ainda mais relevância sob a presidência de Carmen Zanotto.
O Novo manteve posição e o Podemos agregou mais um parlamentar ao bloco governista.
Base consolidada
A conta é objetiva:
PL: 14 deputados
Republicanos: 2
Podemos: 1
Novo: 1
Total: 18 parlamentares.
Somando dissidências alinhadas — três do MDB e dois do PP — chega-se a 23 deputados.
Ou seja: maioria absoluta na Assembleia Legislativa.
Em ano eleitoral, isso significa controle político e legislativo — um ativo decisivo para qualquer projeto de reeleição.
Brasília
Na bancada federal catarinense, a movimentação foi mais discreta.
Ismael dos Santos migrou do PSD para o PL, repetindo o movimento anterior de Ricardo Guidi e zerando a representação federal pessedista.
Com isso, o PL passa de seis para sete deputados federais do estado.
Campo governista ampliado
Somando PL, Republicanos e Novo, o governador conta com 10 dos 16 deputados federais catarinenses.
Com o apoio já sinalizado de Valdir Cobalchini (MDB), o número sobe para 11 parlamentares alinhados ao governo.
Movimentos complementares
O Republicanos também se fortalece em Brasília:
Jorge Goetten já havia migrado para a sigla e agora
Geovania de Sá se incorpora após deixar a federação PSDB-Cidadania.
Movimentos pontuais, mas que reforçam o mesmo eixo: expansão da base governista.
Senado
No Senado, o cenário também revela tensões.
Esperidião Amin tenta viabilizar candidatura ao lado de João Rodrigues, mas enfrenta resistência interna no próprio PP.
Enquanto isso, Ivete Appel da Silveira e Jorge Seif seguem alinhados ao governador.
Conforto político
O balanço final é claro:
Jorginho Mello reúne apoio direto ou indireto de 13 dos 19 representantes catarinenses em Brasília, além de maioria confortável na Assembleia Legislativa.
Conclusão
Trata-se de uma posição politicamente privilegiada — e rara.
Em ano decisivo, com projeto claro de reeleição, o governador não apenas ampliou sua base: estruturou um campo de poder consistente, disciplinado e, até aqui, sem contraponto à altura.
A janela fechou. E deixou evidente quem, de fato, saiu mais forte dela.