Meu pai, natural de Jaraguá do Sul, brilhante intelectual que, em 1937, aos 13 anos de idade, foi premiado com uma bolsa de estudos na capital Florianópolis, por ter sido o melhor aluno no ensino fundamental em SC, foi, também, uma pessoa qualificada a consertos domésticos de todo tipo. Com a idade e a obesidade, passou-me a chamar para substitui-lo nos serviços, sempre se mantendo ao lado, como um professor. Felizmente, conseguiu “formar-me”, ao longo da minha adolescência, num “dá jeito em tudo”, num “salva pátria” para 1001 emergências.
A realidade, hoje em dia, é que cada vez mais pessoas sabem teclar no celular ou no computador, mas poucos sabem apertar um parafuso, consertar uma torneira ou pendurar uma prateleira.
E é nesse cenário que o profissional cognominado “marido de aluguel” ganha importância fundamental, pois transforma habilidades manuais em soluções práticas para os pequenos problemas do cotidiano.
Mais do que consertar, ele economiza tempo, evita dores de cabeça e devolve tranquilidade a quem não sabe por onde começar.
Seu trabalho lembra que nem tudo se resolve com um clique, um aplicativo ou uma inteligência artificial. Algumas coisas ainda exigem mãos habilidosas, experiência, paciência e criatividade. Afinal, de que adianta dominar o mundo digital se não se consegue trocar uma resistência de chuveiro?
Ou seja, valorizar um “ajeita tudo” é reconhecer que, em uma sociedade cada vez mais conectada, saber fazer com as mãos continua sendo uma competência indispensável e, cada vez mais, preciosa.
Contudo, tanta tecnologia, computadores, smartphones, sistemas de gestão, inteligência artificial e ferramentas digitais – e subsequentes ferramentas intelectuais – parece gerar um “desprestígio socioeconômico” aos profissionais que exercem atividades que exigem justamente aquilo que nenhuma tela consegue substituir completamente: mãos, força, habilidade, experiência, sensibilidade e disposição para fazer.
Por isso, muitos jovens ainda objetivam uma profissão, sempre diante de um computador, usando teclado, mouse, celular e caneta.
OK, até não há nada de errado nisso, pois o trabalho intelectual, também, é indispensável e o desenvolvimento tecnológico depende de pessoas capazes de pensar, planejar, analisar, administrar, projetar, programar, negociar e decidir.
O problema começa, entretanto, quando se passa a considerar que somente esse tipo de trabalho representa status socioeconômico, já que a expressão “sujar as mãos” tem uma conotação profissional meio pejorativa, ou seja, como que significando uma posição inferior, tal como
trabalhos em oficinas, fábricas, obras, lavouras, cozinhas, manutenções ou serviços técnicos serem menos importantes que em um escritório.
Esta visão é, não apenas equivocada, mas perigosa, porque, no mundo real, alguém precisa construir aquilo que foi projetado no computador. Alguém precisa consertar aquilo que quebrou. Alguém precisa instalar aquilo que foi vendido. Alguém precisa produzir aquilo que foi planejado. Afinal, alguém precisa plantar, colher, cozinhar, soldar, montar, pintar, cortar, ajustar, transportar, limpar, cuidar e manter funcionando. Em resumo, uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela que valoriza apenas quem pensa, mas aquela que reconhece a dignidade de quem transforma o pensamento em realidade.
Ainda, paradoxal e metaforicamente, até vale dizer: “sujar as mãos”, no bom sentido, é quase sempre algo digno; “sujar” o pensamento, nunca.