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O mito da meritocracia

Foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

17/06/2026 - 06:06

“♫ She is ragin’/ She is ragin’/ And the storm blows up in her eyes/ She will suffer the needle chill/ She’s running to stand still.” (Running to stand still; U2)

Há uma onda, nas redes sociais, supervalorizando a meritocracia. A meritocracia não é panaceia, embora para alguns pareça. Não dá para falar em meritocracia quando há pessoas privilegiadas na disputa. E quando me refiro à privilégio, não trato unicamente daqueles nascidos em berço de ouro. Essa é apenas uma forma de privilégio.

Há pessoas que nascem pobres ou em classe média, e se tornam ricas, ou muito ricas (aqui, falo dos que ganham seu dinheiro honestamente). Essas pessoas podem não ter nascido em berço de ouro, mas têm uma inteligência muito acima da média, ou um tino comercial excepcional, ou uma facilidade de relacionamentos e carisma extraordinários, ou não precisam dormir tanto quanto a maioria de nós, ou uma força de vontade hercúlea, ou um brilhantismo qualquer incomum. Ou tudo isso junto (e se nascer em berço de ouro, ou, pelo menos, em família bem estruturada, isso facilita muito e ninguém pode negar). Isto é, são pessoas fora da curva.

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Também não vou entrar no mérito de as pessoas aproveitarem seus dons ou riquezas (em sentido amplo) e daquelas que simplesmente querem ter uma vida não acelerada. Está tudo certo, tanto para um lado quanto para o outro. Escala 7/7, 14 horas por dia é para alguns, não para muitos. Querer projetar isso em todos os outros, sob o argumento de “quem quer, consegue” é desonestidade intelectual.

Os fazedores de dinheiro fácil

O problema é que há muitos pseudo-coaches e influenciadores querendo fazer crer que é assim, que é fácil, que só não consegue quem não se esforça o suficiente.

A narrativa costuma ser simplista, sedutora e extremamente rentável. Basta acordar às cinco da manhã, tomar um banho de gelo, ler um versículo qualquer, trabalhar mais do que todo mundo, eliminar distrações, consumir determinados conteúdos, seguir fórmulas e, inevitavelmente, o sucesso chegará. Se não chegou, a culpa é exclusivamente sua.

É conveniente para quem vende cursos, comercializa fórmulas mágicas, transforma complexidades sociais, econômicas e humanas em vídeos de trinta segundos. A vida real, porém, não funciona como um vídeo motivacional.

Além dos diversos fatores que escapam ao controle individual, como saúde, ambiente familiar, oportunidades, contatos, origem, acesso à educação, condições econômicas, estabilidade emocional, genética, também tem o acaso (a palavrinha que os pregadores da meritocracia têm ojeriza).

Aqui, não lá

Ser brilhante e encontrar o mercado certo na hora certa, cruzar com a pessoa certa, estar em um ambiente propício na época certa, tudo interfere, sim. Estou lendo “Os inovadores”, de Walter Isaacson, e a história evidencia. Há exceções? Sim, mas são exceções.

De toda forma, reconhecer as diferenças não significa desprezar o esforço individual. Ao contrário: o mérito existe, o trabalho importa, a disciplina faz diferença e estudar continua sendo um dos caminhos mais seguros para ampliar oportunidades. O problema é transformar mérito em religião. E como toda religião produz seus hereges, nesse caso, os hereges são aqueles que não prosperaram. Uma lógica cruel.

As redes sociais mostram apenas os vencedores. Carros, viagens, escritórios luxuosos, faturamentos extraordinários, corpos esculturais e histórias de superação. Raramente mostram os milhares (ou milhões) que tentaram exatamente a mesma estratégia e não chegaram ao mesmo resultado. Vemos quem venceu e esquecemos quem ficou pelo caminho. Muitas vezes, numa versão cuidadosamente editada da realidade.

Talvez a verdadeira discussão não seja entre mérito e privilégio. É reconhecer que a vida é muito mais complexa do que os vendedores de certezas admitem. O verdadeiro mérito está em construir uma vida digna, honesta e coerente com os próprios valores. Amar e ser feliz.

Nem todo mundo quer (ou precisa) ser milionário.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.