“♫ Day after day, alone on a hill/ The man with the foolish grin is keeping perfectly still/ But nobody wants to know him/ They can see that he’s just a fool/ And he never gives an answer” (The fool on the hill; The Beatles)
Em janeiro de 1995, um homem assaltou dois bancos em Pittsburgh, EUA, em plena luz do dia. Não usava máscara e parecia absolutamente tranquilo diante das câmeras de segurança. Horas depois, foi preso com facilidade. Seu nome era McArthur Wheeler. Ao ser confrontado com as imagens gravadas, reagiu com espanto genuíno. Segundo relatos da investigação, repetia, incrédulo: “Mas eu passei suco de limão!”. Ficou famoso pela façanha.
A explicação era tão absurda quanto fascinante. Wheeler acreditava que, ao cobrir o rosto com suco de limão, tornar-se-ia invisível para as câmeras. A ideia teria surgido porque o suco de limão pode ser utilizado como tinta invisível em determinadas circunstâncias, como naquelas brincadeiras que crianças fazem escrevendo cartas assim. Ele concluiu que, se funcionava no papel, também funcionaria no próprio rosto. Mais impressionante do que a ignorância foi a confiança.
Quanto menos sei…
Esse episódio despertou o interesse dos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, que passaram a estudar um fenômeno curioso do comportamento humano. Descobriram que pessoas com pouco conhecimento sobre determinado assunto frequentemente superestimam a própria competência, justamente porque lhes falta conhecimento suficiente para perceber o quanto desconhecem. Suas conclusões ficaram conhecidas como Efeito Dunning-Kruger.
Quanto mais sei…
Curiosamente, mais de dois mil anos antes, esse paradoxo havia sido resumido em uma frase atribuída Sócrates: “só sei que nada sei”. Não era um elogio à ignorância, mas à humildade intelectual. Reconhecer os próprios limites do conhecimento é o primeiro passo para aprender algo novo.
A internet fez um enorme favor à humanidade ao democratizar o acesso à informação. Nunca foi tão fácil consultar artigos científicos, bibliotecas digitais, cursos universitários e pesquisas produzidas em qualquer parte do planeta.
Mas também produziu um efeito colateral inesperado. Nunca foi tão fácil confundir acesso à informação com conhecimento. Ler três publicações (se muito), assistir a dois vídeos curtos e acompanhar um influenciador durante uma semana passou, para muita gente, a ser suficiente para emitir opiniões categóricas sobre qualquer tema.
A voz dos imbecis
O idiota da aldeia alçado a portador da verdade refletiu na frase talvez mais real dos últimos tempos, de Umberto Eco, que adapto aqui: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. A tecnologia reduziu drasticamente o custo para obter respostas, mas não reduziu o tempo necessário para formar discernimento.
As redes sociais ampliam esse fenômeno porque seus algoritmos privilegiam convicções fortes, frases de efeito e certezas. A dúvida não viraliza. A ponderação rende menos engajamento do que a indignação. O especialista que explica nuances disputa espaço com o influenciador que promete soluções simples para problemas complexos.
Parece que tudo tem que ser fácil e palatável (especialmente para determinados grupos). Nesse ambiente, admitir desconhecimento parece sinal de fraqueza. Demonstrar certeza, ainda que equivocada, rende curtidas, compartilhamentos e seguidores.
Quando cada grupo passa a consumir apenas conteúdos que confirmam suas próprias crenças, desaparece o incentivo para revisar posições. O contraditório deixa de ser oportunidade de aprendizado e passa a ser tratado como ataque pessoal.
O resultado é uma curiosa inversão filosófica. Quanto mais informação circula, mais difícil se torna distinguir conhecimento de mera opinião. Quanto mais ferramentas digitais surgem para ampliar horizontes, maior parece a tentação de viver cercado apenas por ideias familiares.
O maior ensinamento daquele assaltante de Pittsburgh não está na ingenuidade de acreditar no suco de limão. Está na constatação de que seres humanos podem defender convicções completamente equivocadas com absoluta sinceridade.
A tecnologia mudou quase tudo desde 1995. O acesso ao conhecimento tornou-se praticamente ilimitado. A natureza humana, porém, continua lembrando diariamente que informação não é sinônimo de sabedoria.